Tenho grande admiração pelo trabalho deste singular escritor: Valter da Rosa Borges, postei textos extraídos do seu site, para que todos os leitores do meu blog, possam também conhecer, apreciar seu trabalho apurado, suscinto e sensato.
Boa leitura!
Valter da Rosa Borges nasceu no bairro histórico de São José, Recife, Pernambuco, em 15 de março de 1934
Formou-se em Direito pela Faculdade de Direito de Pernambuco em 1959.
Ingressou no Ministério Público de Pernambuco em 1963 e se aposentou como Procurador de Justiça em 1993.
É livre-pensador, parapsicólogo, filósofo, poeta, escritor, conferencista e autor de livros e artigos, que versam sobre os mais diversos assuntos.
Em 1950, fundou o Grêmio Cultural Joaquim Nabuco, uma instituição lítero-artística, que teve atuação destacada no mundo intelectual do Recife.
Em 1953, iniciou seus estudos e pesquisas da fenomenologia paranormal, e é um dos decanos da Parapsicologia brasileira.
Em 1968, criou, dirigiu e apresentou, na TV Universitária Canal 11, da Universidade Federal de Pernambuco, o programa O Grande Júri, o primeiro programa cultural e científico do Brasil e que teve a duração de quatorze (14) anos, terminando em 1982.
Fundou, em 1973, o Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas, uma das mais antigas instituições de Parapsicologia no Brasil.
Em 1972, foi considerado, pelo Jornal de Letras, como uma das dez Personalidades da Cultura de Pernambuco.
Em 1977, integrou a Comissão de Direito Civil e Processo Civil, no V Congresso Nacional do Ministério Público, realizado no Recife.
Lecionou Sociologia na Universidade Federal de Pernambuco (1977 a 1980) e foi professor de Direito Civil na Universidade Católica de Pernambuco (1978 a 1990).
Em 1978, fundou a Academia Pernambucana de Ciências, da qual foi Presidente em quatro mandatos. Nesse ano, recebeu o título de Melhor Produtor e Televisão em Pernambuco, do ano de 1977, conferido pelo Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Radiodifusão e Televisão de Pernambuco.
A partir de 1979, começou a participar, como conferencista oficial, de Congressos de Parapsicologia, no Brasil e no Exterior. E ministrou Cursos de Parapsicologia, na Universidade Federal da Paraíba, na Universidade Católica de Pernambuco e na Universidade Federal de Pernambuco.
Em 18 de janeiro de 1980, recebeu o Título de Acadêmico Emérito da Academia de Letras e Artes do Nordeste Brasileiro.
Em 1990, assumiu a Coordenadoria do Meio Ambiente do Ministério Público de Pernambuco. No ano seguinte, representou o Ministério Público de Pernambuco no I Encontro Nacional do Ministério Público à Eco-92, realizado em Goiânia, Goiás.
Recebeu, em 1995, o Prêmio de poesia “Lyra e César”, concedido pela Academia Pernambucana de Letras, ao seu livro “O Ser, o Agora, o Sempre”.
Em 1996, passou a dirigir o Anuário Brasileiro de Parapsicologia.
Em 7 dezembro de 1996, lhe foi conferido o título de Presidente de Honra do Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas – IPPP - e o Diploma de Honra ao Mérito pela relevante contribuição a essa instituição e ao progresso da Parapsicologia no Brasil.
Em 1999, fundou a Sociedade Internacional de Transcendentologia.
Em 18 de março de 1998, tornou-se sócio efetivo da Academia de Artes e Letras de Pernambuco .
No dia 13 de janeiro de 1999, recebeu o título de História Viva do Recife, outorgado pelo Museu da Cidade do Recife, da Secretaria de Cultura, Turismo e Esportes, e entregue pelo Prefeito Roberto Magalhães.
Recebeu o diploma de Mérito Acadêmico, concedido pela Academia Pernambucana de Ciências, no dia 6 de dezembro de 2000.
Foi agraciado com a medalha Marechal Trompowski, conferida pelo Instituto dos Docentes do Magistério Militar, em solenidade no Colégio Militar do Recife, no dia 18 de outubro de 2002.
Em 16 de dezembro de 2003, recebeu o título de Sócio Emérito da Academia de Artes, Letras e Ciências de Olinda.
Realiza palestras, sob os mais diversos temas, em instituições científicas, culturais e universitárias. E é entrevistado sobre temas de parapsicologia nas emissoras de rádio e televisão, assim como em jornais e revistas.
Nas suas atividades de parapsicólogo, investiga fenômenos paranormais, notadamente os de "poltergeist" em Pernambuco.
É membro da União Brasileira de Escritores, seção de Pernambuco, da Academia de Artes e Letras de Pernambuco, da Academia de Letras e Artes do Nordeste Brasileiro, da Parapsychological Association e da Associación Iberoamericana de Parapsicologia.
Entrevista com Fernando Pessoa

Fernando Pessoa (1888-1935). Um dos maiores poetas de Portugal
O crítico literário Harold Bloom considerou-o o mais representativo poeta do século XX ao lado de Pablo Neruda.
Assumiu personalidades fictícias conhecidas como heterônimos, que se fizeram autores de várias de suas obras.
VRB – Fernando Pessoa: por que um poeta?
Fernando Pessoa – Ser poeta não é uma ambição minha. É a minha maneira de estar sozinho.
VRB – A realidade é sempre nova. Viver, é permanente descoberta?
Fernando Pessoa – A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
VRB – Há uma realidade além da realidade física?
Fernando Pessoa – Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
VRB – O que é amar?
Fernando Pessoa – Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...
VRB – A inocência de não pensar é uma metafísica?
Fernando Pessoa – Há metafísica bastante em não pensar em nada.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, Mas porque a amo, e amo-a por isso, Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
VRB – O que você pensa sobre o mundo
Fernando Pessoa – Sei lá o que penso do Mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Creio no mundo como num malmequer, Porque o vejo. Mas não penso nele Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos)
VRB – Há mistérios na vida ou a vida é o maior de todos os mistérios?
Fernando Pessoa – O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos.
Começa a não saber o que é o Sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o Sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
VRB – Tudo o que existe tem um sentido?
Fernando Pessoa – O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Eu vejo ausência de significação em todas as coisas;
Vejo-me e amo-me, porque ser uma coisa é não significar nada.
O ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as coisas.
VRB – A riqueza é um conceito que varia de pessoa a pessoa.
Fernando Pessoa – Nossa única riqueza é ver.
VRB – O egoísmo é natural em todos os seres vivos. De que modo você é egoísta?
Fernando Pessoa – (Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com o florir e ir correndo.
- essa a única missão no Mundo,
Essa — existir claramente,
E saber fazê-lo sem pensar nisso.)
VRB – Há metafísicos que afirmam que a consciência não é privativa dos seres humanos e está, em maior ou menor grau, em tudo o que existe.
Fernando Pessoa – Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas coisas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos...
VRB – As pessoas gostam de recordar o que viveram, como uma forma psicológica de reviver o passado.
Fernando Pessoa – A recordação é uma traição à Natureza.
Porque a Natureza de ontem
não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
VRB – É muito comum se dizer: somos o que somos interiormente. O que você pensa sobre isso?
Fernando Pessoa – Antes de sermos interior somos exterior.
Por isso, somos exterior essencialmente.
VRB – A liberdade tem sido uma das grandes aspirações do ser humano. Somos livres ou apenas produtos de nossos condicionamentos culturais?
Fernando Pessoa – Só na ilusão da liberdade
A liberdade existe.
VRB – Tudo o que fomos, agora é sonho. Então é o nosso presente nada mais do que uma máquina de sonhos.
Fernando Pessoa – Quem sou e quem fui
São sonhos diferentes.
VRB – Os sentimentos bons ou maus nos acorrentam. Há as algemas do amor. Há as algemas do ódio. Como nos libertarmos dos afetos que nos aprisionam?
Fernando Pessoa – Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido
De afetos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
VRB – Somos só a nossa autenticidade, ou os outros nos acrescenta?
Fernando Pessoa – Ninguém te dá quem és.
VRB – É o amor que temos a alguém uma mera projeção de nós mesmos?
Fernando Pessoa – Ninguém a outro ama, senão que ama
O que de si há nele, ou é suposto.
VRB – Só existe ação verdadeira quando nada somos senão ela.
Fernando Pessoa – Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
VRB – A quem é feliz, o que acresce a esperança?
Fernando Pessoa – O que nada espera
Tudo que vem é grato.
VRB – Qual o nosso erro maior?
Fernando Pessoa – O erro de querer ser igual a alguém.
VRB – Tudo o que temos é hoje.
Fernando Pessoa – Colhe o dia, porque és ele.
VRB – O que somos nos é pouco. Queremos ser mais de um.
Fernando Pessoa – Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
VRB – Tudo o que não podemos, virá deuses.
Fernando Pessoa – Os deuses
Dão vida e não verdade, nem talvez
Saibam qual a verdade.
VRB – Para muitas pessoas o desconhecido apavora.
Fernando Pessoa – Mas o que é conhecido? O que tu conheces
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?
VRB – Ansiamos pelo infinito.
Fernando Pessoa – Amanhã é infinito.
VRB – Escrevemos, ou algo escreve por nós?
Fernando Pessoa – Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...
VRB – Há volta para o que foi?
Fernando Pessoa – Nunca voltarei porque nunca se volta.
VRB – Há ocasiões em que a consciência dói. Então queremos a anestesia de um breve repouso no nada.
Fernando Pessoa – Trouxe comigo o espinho essencial de ser consciente,
A vaga náusea, a doença incerta, de me sentir.
VRB – Toda conclusão é uma porta que se fecha.
Fernando Pessoa – Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
VRB – As coisas têm algum sentido?
Fernando Pessoa – O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Eu vejo ausência de significação em todas as coisas;
Vejo-me e amo-me, porque ser uma coisa é não significar nada.
VRB – A nossa maior liberdade é não sermos indispensáveis a ninguém.
Fernando Pessoa – Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
A realidade não precisa de mim.
VRB – Viver só por viver é viver e nada mais.
Fernando Pessoa - Viver não é necessário; o que é necessário é criar. Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.
VRB – Tudo o que passou, é lição? Tudo que passou, vale a pena?
Fernando Pessoa – Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
VRB – Quem vive à superfície de si, o que de si ignora?
Fernando Pessoa - Quem sou é quem me ignoro e vive Através dessa névoa que sou eu Todas as vidas que eu outrora tive, Numa só vida.
VRB – Por que não somos um, somos um paradoxo.
Fernando Pessoa – Às vezes sou o Deus que trago em mim E então eu sou o Deus, o crente e a prece E a imagem de marfim Em que esse Deus se esquece. Às vezes não sou mais que um ateu Desse Deus meu que eu sou quando me exalto. Olho em mim todo um céu E é um mero oco céu alto.
VRB – O que fazer da dor quando inevitável?
Fernando Pessoa – Deixa a dor nas aras como ex-voto aos deuses.
VRB – O que de excelência os deuses superam o ser humano?
Fernando Pessoa – Os deuses são deuses Porque não se pensam.
Fernando Pessoa – Ser poeta não é uma ambição minha. É a minha maneira de estar sozinho.
VRB – A realidade é sempre nova. Viver, é permanente descoberta?
Fernando Pessoa – A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
VRB – Há uma realidade além da realidade física?
Fernando Pessoa – Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
VRB – O que é amar?
Fernando Pessoa – Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...
VRB – A inocência de não pensar é uma metafísica?
Fernando Pessoa – Há metafísica bastante em não pensar em nada.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, Mas porque a amo, e amo-a por isso, Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
VRB – O que você pensa sobre o mundo
Fernando Pessoa – Sei lá o que penso do Mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Creio no mundo como num malmequer, Porque o vejo. Mas não penso nele Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos)
VRB – Há mistérios na vida ou a vida é o maior de todos os mistérios?
Fernando Pessoa – O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos.
Começa a não saber o que é o Sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o Sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
VRB – Tudo o que existe tem um sentido?
Fernando Pessoa – O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Eu vejo ausência de significação em todas as coisas;
Vejo-me e amo-me, porque ser uma coisa é não significar nada.
O ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as coisas.
VRB – A riqueza é um conceito que varia de pessoa a pessoa.
Fernando Pessoa – Nossa única riqueza é ver.
VRB – O egoísmo é natural em todos os seres vivos. De que modo você é egoísta?
Fernando Pessoa – (Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com o florir e ir correndo.
- essa a única missão no Mundo,
Essa — existir claramente,
E saber fazê-lo sem pensar nisso.)
VRB – Há metafísicos que afirmam que a consciência não é privativa dos seres humanos e está, em maior ou menor grau, em tudo o que existe.
Fernando Pessoa – Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas coisas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos...
VRB – As pessoas gostam de recordar o que viveram, como uma forma psicológica de reviver o passado.
Fernando Pessoa – A recordação é uma traição à Natureza.
Porque a Natureza de ontem
não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
VRB – É muito comum se dizer: somos o que somos interiormente. O que você pensa sobre isso?
Fernando Pessoa – Antes de sermos interior somos exterior.
Por isso, somos exterior essencialmente.
VRB – A liberdade tem sido uma das grandes aspirações do ser humano. Somos livres ou apenas produtos de nossos condicionamentos culturais?
Fernando Pessoa – Só na ilusão da liberdade
A liberdade existe.
VRB – Tudo o que fomos, agora é sonho. Então é o nosso presente nada mais do que uma máquina de sonhos.
Fernando Pessoa – Quem sou e quem fui
São sonhos diferentes.
VRB – Os sentimentos bons ou maus nos acorrentam. Há as algemas do amor. Há as algemas do ódio. Como nos libertarmos dos afetos que nos aprisionam?
Fernando Pessoa – Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido
De afetos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
VRB – Somos só a nossa autenticidade, ou os outros nos acrescenta?
Fernando Pessoa – Ninguém te dá quem és.
VRB – É o amor que temos a alguém uma mera projeção de nós mesmos?
Fernando Pessoa – Ninguém a outro ama, senão que ama
O que de si há nele, ou é suposto.
VRB – Só existe ação verdadeira quando nada somos senão ela.
Fernando Pessoa – Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
VRB – A quem é feliz, o que acresce a esperança?
Fernando Pessoa – O que nada espera
Tudo que vem é grato.
VRB – Qual o nosso erro maior?
Fernando Pessoa – O erro de querer ser igual a alguém.
VRB – Tudo o que temos é hoje.
Fernando Pessoa – Colhe o dia, porque és ele.
VRB – O que somos nos é pouco. Queremos ser mais de um.
Fernando Pessoa – Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
VRB – Tudo o que não podemos, virá deuses.
Fernando Pessoa – Os deuses
Dão vida e não verdade, nem talvez
Saibam qual a verdade.
VRB – Para muitas pessoas o desconhecido apavora.
Fernando Pessoa – Mas o que é conhecido? O que tu conheces
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?
VRB – Ansiamos pelo infinito.
Fernando Pessoa – Amanhã é infinito.
VRB – Escrevemos, ou algo escreve por nós?
Fernando Pessoa – Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...
VRB – Há volta para o que foi?
Fernando Pessoa – Nunca voltarei porque nunca se volta.
VRB – Há ocasiões em que a consciência dói. Então queremos a anestesia de um breve repouso no nada.
Fernando Pessoa – Trouxe comigo o espinho essencial de ser consciente,
A vaga náusea, a doença incerta, de me sentir.
VRB – Toda conclusão é uma porta que se fecha.
Fernando Pessoa – Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
VRB – As coisas têm algum sentido?
Fernando Pessoa – O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Eu vejo ausência de significação em todas as coisas;
Vejo-me e amo-me, porque ser uma coisa é não significar nada.
VRB – A nossa maior liberdade é não sermos indispensáveis a ninguém.
Fernando Pessoa – Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
A realidade não precisa de mim.
VRB – Viver só por viver é viver e nada mais.
Fernando Pessoa - Viver não é necessário; o que é necessário é criar. Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.
VRB – Tudo o que passou, é lição? Tudo que passou, vale a pena?
Fernando Pessoa – Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
VRB – Quem vive à superfície de si, o que de si ignora?
Fernando Pessoa - Quem sou é quem me ignoro e vive Através dessa névoa que sou eu Todas as vidas que eu outrora tive, Numa só vida.
VRB – Por que não somos um, somos um paradoxo.
Fernando Pessoa – Às vezes sou o Deus que trago em mim E então eu sou o Deus, o crente e a prece E a imagem de marfim Em que esse Deus se esquece. Às vezes não sou mais que um ateu Desse Deus meu que eu sou quando me exalto. Olho em mim todo um céu E é um mero oco céu alto.
VRB – O que fazer da dor quando inevitável?
Fernando Pessoa – Deixa a dor nas aras como ex-voto aos deuses.
VRB – O que de excelência os deuses superam o ser humano?
Fernando Pessoa – Os deuses são deuses Porque não se pensam.
Fonte: Valter da Rosa Borges
Entrevista com Charles Chaplin

Charles Chaplin (1889-1977). Foi ator, diretor, roteirista e músico inglês. Atuou, dirigiu, escreveu, produziu e financiou seus próprios filmes, tornando-se um ícone do cinema mudo.
O Grande Ditador (1940) foi o seu primeiro filme falado e também uma crítica a Adolf Hitler e ao fascismo.
VRB – Chaplin, qual o seu conceito de arte?
Chaplin – A Arte é um sentimento difícil de ser definido. O seu tema, por mais importante e grandioso que seja, pode sempre ser simplificado ao ponto de ser compreensível por todas as pessoas. É aí então que a Arte atinge a sua forma mais sublime.
A arte é uma emoção adicional justaposta a uma técnica apurada.
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nós nos desviamos dele. A cobiça envenenou a alma dos homens.
VRB – A beleza é um sentimento pessoal. É o objeto da arte, embora varie segundo a concepção da cada escola. Para uns, a beleza é a sua razão de ser. Uma forma de encantamento que dá sentido a existência.
Chaplin – A beleza é a única coisa preciosa na vida. É difícil encontrá-la - mas, quem consegue, descobre tudo.
A beleza existe em tudo - tanto no bem quanto no mal. Mas somente os artistas e poetas sabem encontrá-la.
A beleza é, no meu entender, uma onipresença da morte e do encanto, uma risonha melancolia que discernimos em todas as coisas da Natureza e da existência, essa comunhão mística que sente o poeta... algo assim como um raio de sol dourado e poeira que esvoaça, ou como uma rosa caída na sarjeta.
Amo a tragédia porque ela é bela. A única comédia que vale a pena é aquela que contém a beleza.
VRB – O que você considera mais importante num filme? O seu temário? A sua técnica? A fidelidade ao real?
Chaplin – Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação.
Depois de tantos anos de trabalho e experiência, descobri que as idéias de meus filmes surgem em conseqüência do intenso desejo de concebê-las. Provocada por esse desejo, a mente se torna uma espécie de torre de observação à espreita de incidentes que possam excitar imaginação: música, crepúsculos, qualquer coisa, enfim, pode ser a imagem capaz de inspirar uma idéia. Quando descobrimos um assunto capaz de estimulá-la, elaboramos os pormenores e desenvolvemos tal idéia, ou, se isso não é possível, descartamo-nos dela e procuramos outra. Acumulação e eliminação representam o processo pelo qual acabamos chegando ao que desejamos.
VRB – Qual dos seus filmes você julga o melhor?
Chaplin – Creio que Monsieur Verdoux é o melhor e o mais brilhante dos filmes que já fiz.
VRB – Carlitos foi uma personagem que ganhou uma dimensão humana internacional, tal como Édipo, Hamlet e Otelo, por exemplo. O que o inspirou a criá-la?
Chaplin – Muita gente me pergunta onde foi que me inspirei para criar a minha personagem. Na verdade, Carlitos aparece como sendo a síntese de muitos ingleses que eu via em Londres quando era jovem: tipos de pequena estatura, do bigodinhos pretos, roupas bem justas, e sempre portando uma bengala de bambu. A idéia da bengalinha foi a mais feliz de todas, pois foi ela que caracterizou a personagem e a tornou conhecida mais rapidamente. Desenvolvi o seu uso ao ponto de torná-la cômica por si só - por exemplo, quando ela se enroscava no pé de alguém ou puxava uma pessoa pelo ombro. Muitas dessas cenas acabavam por se tornar, inesperadamente, muito engraçadas.
VRB – O sucesso é a realização de uma meta e, assim, varia de pessoa a pessoa. No seu caso, o que concorreu para o seu sucesso?
Chaplin – Conhecer o homem - esta é a base de todo o sucesso.
Estudei o homem, porque se assim não o fizesse, não conseguiria realizar nada em meu ofício.
VRB – O cômico é sempre difícil, porque facilmente satura. O trágico tem uma duração ilimitada, porque parece um arquétipo da natureza humana.
Chaplin - Na criação de comédia, por mais paradoxal que isso pareça, o senso do ridículo é estimulado pela tragédia; pois o ridículo, creio eu, contém um desafio: devemos rir do nosso desamparo na luta contra as forças da Natureza... para não enlouquecer.
VRB – Qual a técnica para evitar a obsolescência da comicidade?
Chaplin – Uma das coisas que sempre procuro evitar é não exagerar ou insistir demasiadamente num ponto determinado. Quando se exagera na comicidade, a cena deixa de produzir risos e nada acrescenta ao filme.
VRB – Então, ser comedido é uma das virtudes do artista? Parece-me que não. O artista é quase sempre um exagerado, não raro um excêntrico.
Chaplin – Ser comedido é algo muito importante, não somente para um ator, mas para qualquer pessoa. Moderar o temperamento, os apetites, os maus hábitos e todas outras coisas é uma necessidade.
Toda vez que assisto a um dos meus filmes, quando ele é apresentado pela primeira vez ao público, eu presto mais atenção na reação das pessoas do que na própria película - nas situações que causam o riso e nas que não causam.
De certa forma, sempre que vou ver um de meus próprios filmes, eu me comporto como um comerciante qualquer que fica observando quais as mercadorias que seus clientes gostam de comprar.
VRB – Ademais, o riso é um benefício para a saúde física e mental.
Chaplin - O humorismo nos alivia das vicissitudes da vida, ativando o nosso senso de proporção e nos revelando que a seriedade exagerada tende ao absurdo.
VRB – O humorismo foi a marca de sua personalidade?
Chaplin - No fundo, sou um pierrô sentimental.
VRB – O que o tornou um mestre da pantomima? Inspirou-se em alguém como modelo?
Chaplin - Sem minha mãe, acho que jamais teria me saído bem na pantomima. Ela possuía a mímica mais notável que já vi. Às vezes, ficava durante horas à janela, olhando para a rua e reproduzindo com as mãos, os olhos e a expressão de sua fisionomia tudo o que se passava lá embaixo. E foi observando-a assim que eu aprendi não somente a traduzir as emoções com as minhas mãos e meu rosto, mas sobretudo a estudar o homem.
VRB – Que influência teve a sua infância em sua vida?
Chaplin – As lembranças dos meus primeiros tempos ainda estão muito vivas. É difícil para mim falar dessa época. No entanto, penso muito nela.
Às vezes fico pensando se eu existiria como sou se tivesse nascido filho de um rico nobre; mas como é que se pode responder a uma coisa dessas? Nossas experiências iniciais ficam com a gente e moldam o nosso futuro.
Uma pessoa pode ter uma infância triste e mesmo assim chegar a ser muito feliz na maturidade. Da mesma forma, pode nascer num berço de ouro e sentir-se enjaulada pelo resto da vida.
VRB – Todas as pessoas (ou quase todas) têm os seus fantasmas, que, geralmente, as perseguem por toda a vida. Quais são os seus fantasma?
Chaplin - Durante a infância, a fome e o medo do amanhã eram duas constantes em minha existência. Por mais rico que possa vir a ser, jamais conseguirei me libertar desse medo. Sinto-me como um homem perseguido por um fantasma - o fantasma da pobreza.
VRB – É arte de representar um talento inato ou aprendido? Mesmo sendo um talento, deve ser aprimorado?
Chaplin – Não creio que a arte de representar possa ser ensinada. Já vi pessoas inteligentes fracassarem e pessoas estúpidas se saírem muito bem. O que a representação requer não é senão sentimento.
Jamais estudei arte de representar, mas, quando menino, vivi numa era de grandes atores e adquiri, por extensão, muito dos seus conhecimentos e experiências. Embora eu tivesse dons, ficava surpreendido, nos ensaios, ao descobrir quanto eu tinha que aprender a respeito da técnica de representar. Mesmo os principiantes com talento devem aprender a técnica, não importa quão bem dotados sejam, pois só assim as suas habilidades se tornarão eficientes.
Quando comecei a fazer filmes cômicos fazia só pelo dinheiro - a arte apareceu por acaso. Se isso decepcionar alguém, nada posso fazer. É a verdade.
VRB – É óbvio que o dinheiro resolve muitos problemas, mas não todos. Há pessoas cujo grande problema é ganhar cada vez mais dinheiro. Então, ganhar dinheiro e mais dinheiro passa a ser uma obsessão, um vício.
Chaplin – Mais dinheiro significa mais problemas. Quando era criança pobre passei por muitos infortúnios... o dinheiro me trouxe outros.
VRB – O que há de comum entre você e Carlitos?
Chaplin - Na_verdade a personagem Carlitos - essa figura que não sou eu, mas que se assemelha comigo como a um irmão - é para mim uma terrível responsabilidade.
VRB – A criação artística e literária é quase sempre uma catarse.Você representou magistralmente a personalidade de Hitler no seu filme O Grande Ditador. O que significou essa representação para você? Até que ponto se envolveu e se identificou com a personalidade de um ditador?
Chaplin – Todas as minhas aspirações secretas, contidas, são satisfeitas quando escrevo e realizo um filme como O Grande Ditador. Entre o ditador e eu, não consigo distinguir qual é o verdadeiro Chaplin.
VRB – Que outras personalidades você gostaria de representar? Seria fiel a elas ou as recriaria?
Chaplin – As duas personalidades que eu mais desejaria recriar em um filme seriam Napoleão e Jesus Cristo... Não representaria Napoleão como um general poderoso, mas como um ser fraco, taciturno, quase melancólico e sempre importunado pelos membros de sua família. Quanto ao Cristo, gostaria também de modificá-lo no espírito das massas. Acho que a personagem mais forte, mais dinâmica e mais importante que já existiu, acabou por ser terrivelmente deformada pela tradição. Mostrá-lo-ia, então, acolhido em delírio por homens, mulheres, e crianças. As pessoas iriam ao seu encontro para sentir seu magnetismo. Não mais seria um homem piedoso, triste e distanciado; um solitário que acabou por ser o maior incompreendido de todos os tempos.
VRB – A opinião pública influiu em sua carreira cinematográfica?
Chaplin – Em toda a minha carreira cinematográfica sempre me guiei, em grande parte, pela opinião pública. Essa opinião chegava a mim através de cartas que recebia, em conversas pessoais, mas sobretudo por intermédio da imprensa. Do mesmo modo, também me convenci de que a contribuição que estou prestando com a realização de meus filmes é bem maior do que aquela que poderia oferecer se estivesse nas trincheiras servindo à causa da guerra.
VRB – Há pessoas que pensam - inclusive eu - que o patriotismo é um sentimento até certo ponto mórbido, porque resulta em fanatismo beligerante e preconceito contra outros povos.
Chaplin - De fato, não sou um patriota - e não somente por motivos morais ou intelectuais, mas também porque é sentimento que não possuo. Como tolerar patriotismo quando em seu nome foram assassinados seis milhões de judeus? Pode-se dizer que isso aconteceu na Alemanha; não obstante, esses impulsos homicidas estão latentes em todas as nações.
Se matamos uma só pessoa, somos assassinos. Se matamos milhões de homens, celebram-nos como heróis. Felicitam-se os que inventam bombas para matar mulheres e crianças.
VRB – Há algum político oculto em Charles Chaplin?
Chaplinn – Não sou político; sou principalmente um individualista. Creio na liberdade; nisso se resume a minha política... Sou pelos homens; essa é a minha natureza.
VRB – Entendo a política como a mais bem sucedida arte de mentir.
Chaplin – Não faço de nenhum político do passado ou do presente um herói digno de ser adorado.
VRB – Por isso, é necessário estarmos atentos ao que se passa no mundo da política para não sermos envolvidos e manipulados pelas tramas e sortilégios dos seus participantes.
Chaplin – Ignorar a situação política do mundo em que vivemos seria como esconder a cabeça na areia. É preciso ser muito idiota para tentar ignorá-la, quando todos nós fazemos parte dela.
VRB – Todos nós temos um ideário de valores. Qual é o seu?
Chaplin – Sou um defensor da liberdade, da justiça e da verdade. Certamente não pretendo fazer nenhuma revolução - não é a minha vocação. Sou a favor do povo.
VRB – Como Chaplin se percebe no mundo? Sente que faz parte dele ou se sente um estrangeiro? Pensa que o conhece ou se sente confuso no seu relacionamento com ele?
Chaplin – Faço parte do mundo - e no entanto ele me torna perplexo.
Durante mais de trinta anos, vivi num autêntico aquário. Toda a minha vida era submetida à publicidade e a toda espécie de pressões. Mas, quaisquer que sejam as minhas opiniões pessoais, insisto na sua integridade inabalável. Mantenho-me nelas e assim farei até que encontre razões válidas para as abandonar.
VRB – E em relação ao mundo artístico?
Chaplin - Receio pelo nosso futuro. Nosso mundo já não é o mundo dos grandes artistas. É um mundo espumante, agitado, amargo, um mundo invadido, inundado pela política...
VRB – As religiões sempre exaltaram a pobreza e satanizaram a riqueza. Por que a pobreza é uma virtude? O pobre gosta de ser pobre ou, na verdade, ele deseja sair da pobreza, embora nem todos anseiem pela riqueza?
Chaplin – Nunca achei a pobreza atrativa nem edificante. O que ela me ensinou foi só uma distorção de valores. Fortuna e fama, por outra parte, ensinaram-me a ver o mundo tal como é, a descobrir que homens das mais elevadas posições se mostram, quando observados de perto, com tantas deficiências como o resto de nós. Fortuna e fama também me ensinaram a ter desdém pelos brasões e pelas comendas, que não passam de pretensiosidades. Ensinaram-me a conhecer que o mérito e a inteligência dos homens não podem ser julgados pelos requintes de pronúncia aprendidos em universidades -mito que tem exercido influência paralisante no espírito das classes médias inglesas. Ensinaram-me a saber que inteligência não é necessariamente produto de educação ou conhecimento dos clássicos.
VRB – A existência tem algum sentido? Ou somos nós que damos sentido à existência?
Chaplin – Não posso crer que nossa existência não tenha sentido, que seja mero acidente, como nos querem convencer alguns cientistas. A vida e a morte são determinadas demais, por demais implacáveis, para que sejam puramente acidentais.
VRB – A emoção é um dos alicerces da pessoa humana. A razão, por si só, não constrói o entendimento do mundo. Como o cinema pode contribuir para a compreensão do ser humano?
Chaplin – Creio no riso e nas lágrimas como antídotos contra o ódio e o terror. Os bons filmes constituem uma linguagem internacional, respondem à necessidade que os homens têm de alegria, de piedade e de compreensão. São um meio de dissipar a onda de angústia e de medo que invade o mundo de hoje... Se pudéssemos pelo menos trocar entre as nações, em grande quantidade, os filmes que não constituem uma propaganda agressiva, mas que falam a linguagem simples dos homens e das mulheres simples... isso poderia contribuir para salvar o mundo do desastre.
VRB – As religiões dão muita ênfase ao sofrimento e quase nenhuma importância à alegria.
Chaplin – Estou sempre alegre - essa é a minha maneira de resolver os problemas da vida. Tenho a impressão de que os homens estão perdendo o dom do riso.
VRB – Há algum país que você especialmente admira?
Chaplin – Para mim, a Itália representa o berço da cultura, da arte e do progresso. Mas sua primeira qualidade é a beleza.
VRB – Para o místico, o silêncio é o caminho da compreensão, da autodescoberta, da libertação dos condicionamentos. É difícil encontrar o silêncio no mundo cada vez mais ruidoso. Parece que o barulho exterior protege as pessoas contra o silêncio que as intimida.
Chaplin – O silêncio - algo que não pode ser comprado - quantos de nós saberíamos defrontá-lo? Os ricos compram o barulho. No entanto, nosso espírito se realiza quando estamos mergulhados no silêncio natural - esse silêncio que jamais recusa aqueles que o procuram..
O som aniquila a grande beleza do silêncio.
VRB – Caso você tenha fé, que importância tem ela em sua vida?
Chaplin – À medida que vou envelhecendo, mais me preocupa a questão da fé. Ela está em nossa vida bem mais do que supomos e inspira as nossas ações bem mais do que imaginamos. Creio que a fé é precursora de todas as nossas idéias. Sem fé não teríamos criado hipóteses, teorias, ciência ou matemática. Penso que a fé é uma extensão do espírito. É a chave que abre a porta do impossível. Negar a fé é refutar a si mesmo e ao espírito que gera todas as nossas forças criadoras.
Minha fé é no desconhecido, em tudo que não podemos compreender por meio da razão; creio que o que está acima do nosso entendimento é apenas um fato em outras dimensões e que no reino do desconhecido há uma infinita reserva de poder.
VRB – Qual a sua opinião sobre os literatos, os artistas e os cientistas?
Chaplin – Os literatos são encantadores, porém não muito dadivosos; transmitem raramente aos outros o que sabem; na grande maioria, escondem-no sob a capa de seus livros.
Os cientistas podem ser ótimos companheiros, mas sua mera presença num salão inibe a inteligência dos demais. Os pintores aborrecem, porque, na maior parte, gostariam de nos convencer que são mais filósofos do que pintores. Sem dúvida, os poetas constituem uma classe superior e como indivíduos são agradáveis, tolerantes e de excelente convívio. Creio, entretanto, que os músicos em geral têm mais senso de cooperação do que qualquer outra espécie de gente.
VRB – Há pessoas que só se sentem bem na solidão. É nela que se reconstroem e aprendem a conviver consigo mesmas. Por isso, se afastam do tumulto da multidão, embora não vivam como anacoretas.
Chaplin – A solidão é repelente. Tem uma aura de tristeza, uma inadequação para atrair ou interessar, a tal ponto que nos sentimos ligeiramente envergonhados quando ela nos rodeia. Mas, num grau maior ou menor, atinge a todos.
VRB – É o ser humano o resultado de sua estrutura genética ou dos condicionamentos sociais ou, ainda, de uma combinação entre esses dois elementos?
Chaplin – A Humanidade não se divide em heróis e tiranos. Suas paixões, boas e más, foram-lhes dadas pela sociedade, não pela Natureza.
VRB – Qual a importância da sexualidade na vida do ser humano?
Chaplin – Procriar é a principal ocupação da natureza e todo homem, seja moço ou velho, quando vem a conhecer uma mulher indaga a si mesmo que possibilidades haverá de relação sexual entre os dois. E era sempre o que acontecia comigo.
VRB – Todas as suas criações o emocionam? Acha que, por isso, elas contagiam o público?
Chaplin – Se o autor não se emociona com a sua própria criação, dificilmente pode esperar que outros o façam. Com franqueza, divirto-me com as minhas comédias mais do que o público.
VRB – Em todas as épocas tudo está em transição, embora o ritmo das mudanças possa ser rápido ou lento. Na nossa época, no entanto, as mudanças estão intensamente aceleradas e, por isso, deixando as pessoas comuns, principalmente, as mais velhas, perdidas e confusas.
Chaplin – Creio que é oportuno transmitir a impressão que tenho sobre a situação do mundo. A complexidade crescente da vida moderna e o ritmo alucinante do século XX encurralaram o homem em gigantescas instituições que o ameaçam por todas as formas, política, científica e economicamente. Começamos a sofrer como que um condicionamento da alma, submetidos a sanções e permissões.
Essa matriz a que temos de nos amoldar deve-se à carência de uma concepção cultural. Entramos às cegas numa existência feia e congestionada. Perdemos a noção do belo. O sentido do nosso viver está sendo embotado pela preocupação do lucro, pelo poder e pelo monopólio. E temos consentido que tais forças nos envolvam, sem nos dar conta das suas conseqüências nefastas.
Sem filosofia orientadora e sem o senso de responsabilidade, a ciência entregou a políticos e militares armas tão destruidoras que eles têm nas mãos o destino de todos os viventes sobre a Terra.
VRB – O acelerado processo da ciência e da tecnologia ensejou um preocupante descompasso com os padrões éticos e morais da humanidade, abalados, por sua vez, pelo fenômeno da globalização e o inevitável confronto entre as culturas.
Chaplin – O homem é um animal com instintos elementares de sobrevivência. Por conseguinte, desenvolveu primeiramente a sua engenhosidade e só depois a sua alma. Assim, o progresso da ciência tem sido muito mais rápido do que o da conduta moral do homem.
VRB – Qual seria, então, a solução para esse impasse? Os povos, na quase totalidade, desconhecem os verdadeiros desafios do nosso mundo tecnológico, assim como a gravidade e a dimensão de seus problemas. As pessoas vivem deslumbradas em um mundo de tantas maravilhas e os dirigentes das nações poderosas estão embevecidos pelo poder e as possibilidades de dominação sobre os outros povos, principalmente aqueles que lhes são concorrentes.
Chaplin – Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade.
Disse Carlyle que a salvação do mundo será obtida quando o povo der para pensar. Mas, a fim de que tal aconteça, é preciso que o povo se veja diante de grave desafio.
Ora, dividindo o átomo, o homem ficou encurralado e na obrigação de pensar. Tem de escolher entre a própria destruição ou uma conduta ajuizada. O avanço da ciência força-o a fazer a opção. Creio que o altruísmo acabará por vencer e há de imperar o amor pela humanidade.
VRB – Então...
Chaplin – Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à juventude e segurança à velhice.
VRB – Embora eu seja um cético em relação a isso, espero que essa sua esperança se concretize.
Mas, finalizando a entrevista, como você se sente na condição de uma pessoa famosa em um mundo cada vez mais competitivo?
Chaplin – Reconheço que o tempo e as circunstâncias me têm favorecido. O mundo cumulou-me de afeições, inspirei amor e também ódio. Deu-me a vida o que havia de melhor e um pouco do pior. Quaisquer que tenham sido as minhas vicissitudes, creio que a ventura e a desventura são filhas do acaso, pairando como nuvens sobre o nosso destino. Com essa compreensão, nunca me abalam demais as coisas ruins que me acontecem, ou agradavelmente surpreendido pelo que vem de bom. Não sigo um roteiro de existência, nenhuma filosofia... Sábios ou tolos, temos todos que batalhar com a vida. Oscilo em meio a contradições: exasperam-me às vezes fatos mínimos, e catástrofes poderão deixar-me indiferente. Contudo, a minha vida é hoje mais apaixonante do que nunca.
Chaplin – A Arte é um sentimento difícil de ser definido. O seu tema, por mais importante e grandioso que seja, pode sempre ser simplificado ao ponto de ser compreensível por todas as pessoas. É aí então que a Arte atinge a sua forma mais sublime.
A arte é uma emoção adicional justaposta a uma técnica apurada.
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nós nos desviamos dele. A cobiça envenenou a alma dos homens.
VRB – A beleza é um sentimento pessoal. É o objeto da arte, embora varie segundo a concepção da cada escola. Para uns, a beleza é a sua razão de ser. Uma forma de encantamento que dá sentido a existência.
Chaplin – A beleza é a única coisa preciosa na vida. É difícil encontrá-la - mas, quem consegue, descobre tudo.
A beleza existe em tudo - tanto no bem quanto no mal. Mas somente os artistas e poetas sabem encontrá-la.
A beleza é, no meu entender, uma onipresença da morte e do encanto, uma risonha melancolia que discernimos em todas as coisas da Natureza e da existência, essa comunhão mística que sente o poeta... algo assim como um raio de sol dourado e poeira que esvoaça, ou como uma rosa caída na sarjeta.
Amo a tragédia porque ela é bela. A única comédia que vale a pena é aquela que contém a beleza.
VRB – O que você considera mais importante num filme? O seu temário? A sua técnica? A fidelidade ao real?
Chaplin – Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação.
Depois de tantos anos de trabalho e experiência, descobri que as idéias de meus filmes surgem em conseqüência do intenso desejo de concebê-las. Provocada por esse desejo, a mente se torna uma espécie de torre de observação à espreita de incidentes que possam excitar imaginação: música, crepúsculos, qualquer coisa, enfim, pode ser a imagem capaz de inspirar uma idéia. Quando descobrimos um assunto capaz de estimulá-la, elaboramos os pormenores e desenvolvemos tal idéia, ou, se isso não é possível, descartamo-nos dela e procuramos outra. Acumulação e eliminação representam o processo pelo qual acabamos chegando ao que desejamos.
VRB – Qual dos seus filmes você julga o melhor?
Chaplin – Creio que Monsieur Verdoux é o melhor e o mais brilhante dos filmes que já fiz.
VRB – Carlitos foi uma personagem que ganhou uma dimensão humana internacional, tal como Édipo, Hamlet e Otelo, por exemplo. O que o inspirou a criá-la?
Chaplin – Muita gente me pergunta onde foi que me inspirei para criar a minha personagem. Na verdade, Carlitos aparece como sendo a síntese de muitos ingleses que eu via em Londres quando era jovem: tipos de pequena estatura, do bigodinhos pretos, roupas bem justas, e sempre portando uma bengala de bambu. A idéia da bengalinha foi a mais feliz de todas, pois foi ela que caracterizou a personagem e a tornou conhecida mais rapidamente. Desenvolvi o seu uso ao ponto de torná-la cômica por si só - por exemplo, quando ela se enroscava no pé de alguém ou puxava uma pessoa pelo ombro. Muitas dessas cenas acabavam por se tornar, inesperadamente, muito engraçadas.
VRB – O sucesso é a realização de uma meta e, assim, varia de pessoa a pessoa. No seu caso, o que concorreu para o seu sucesso?
Chaplin – Conhecer o homem - esta é a base de todo o sucesso.
Estudei o homem, porque se assim não o fizesse, não conseguiria realizar nada em meu ofício.
VRB – O cômico é sempre difícil, porque facilmente satura. O trágico tem uma duração ilimitada, porque parece um arquétipo da natureza humana.
Chaplin - Na criação de comédia, por mais paradoxal que isso pareça, o senso do ridículo é estimulado pela tragédia; pois o ridículo, creio eu, contém um desafio: devemos rir do nosso desamparo na luta contra as forças da Natureza... para não enlouquecer.
VRB – Qual a técnica para evitar a obsolescência da comicidade?
Chaplin – Uma das coisas que sempre procuro evitar é não exagerar ou insistir demasiadamente num ponto determinado. Quando se exagera na comicidade, a cena deixa de produzir risos e nada acrescenta ao filme.
VRB – Então, ser comedido é uma das virtudes do artista? Parece-me que não. O artista é quase sempre um exagerado, não raro um excêntrico.
Chaplin – Ser comedido é algo muito importante, não somente para um ator, mas para qualquer pessoa. Moderar o temperamento, os apetites, os maus hábitos e todas outras coisas é uma necessidade.
Toda vez que assisto a um dos meus filmes, quando ele é apresentado pela primeira vez ao público, eu presto mais atenção na reação das pessoas do que na própria película - nas situações que causam o riso e nas que não causam.
De certa forma, sempre que vou ver um de meus próprios filmes, eu me comporto como um comerciante qualquer que fica observando quais as mercadorias que seus clientes gostam de comprar.
VRB – Ademais, o riso é um benefício para a saúde física e mental.
Chaplin - O humorismo nos alivia das vicissitudes da vida, ativando o nosso senso de proporção e nos revelando que a seriedade exagerada tende ao absurdo.
VRB – O humorismo foi a marca de sua personalidade?
Chaplin - No fundo, sou um pierrô sentimental.
VRB – O que o tornou um mestre da pantomima? Inspirou-se em alguém como modelo?
Chaplin - Sem minha mãe, acho que jamais teria me saído bem na pantomima. Ela possuía a mímica mais notável que já vi. Às vezes, ficava durante horas à janela, olhando para a rua e reproduzindo com as mãos, os olhos e a expressão de sua fisionomia tudo o que se passava lá embaixo. E foi observando-a assim que eu aprendi não somente a traduzir as emoções com as minhas mãos e meu rosto, mas sobretudo a estudar o homem.
VRB – Que influência teve a sua infância em sua vida?
Chaplin – As lembranças dos meus primeiros tempos ainda estão muito vivas. É difícil para mim falar dessa época. No entanto, penso muito nela.
Às vezes fico pensando se eu existiria como sou se tivesse nascido filho de um rico nobre; mas como é que se pode responder a uma coisa dessas? Nossas experiências iniciais ficam com a gente e moldam o nosso futuro.
Uma pessoa pode ter uma infância triste e mesmo assim chegar a ser muito feliz na maturidade. Da mesma forma, pode nascer num berço de ouro e sentir-se enjaulada pelo resto da vida.
VRB – Todas as pessoas (ou quase todas) têm os seus fantasmas, que, geralmente, as perseguem por toda a vida. Quais são os seus fantasma?
Chaplin - Durante a infância, a fome e o medo do amanhã eram duas constantes em minha existência. Por mais rico que possa vir a ser, jamais conseguirei me libertar desse medo. Sinto-me como um homem perseguido por um fantasma - o fantasma da pobreza.
VRB – É arte de representar um talento inato ou aprendido? Mesmo sendo um talento, deve ser aprimorado?
Chaplin – Não creio que a arte de representar possa ser ensinada. Já vi pessoas inteligentes fracassarem e pessoas estúpidas se saírem muito bem. O que a representação requer não é senão sentimento.
Jamais estudei arte de representar, mas, quando menino, vivi numa era de grandes atores e adquiri, por extensão, muito dos seus conhecimentos e experiências. Embora eu tivesse dons, ficava surpreendido, nos ensaios, ao descobrir quanto eu tinha que aprender a respeito da técnica de representar. Mesmo os principiantes com talento devem aprender a técnica, não importa quão bem dotados sejam, pois só assim as suas habilidades se tornarão eficientes.
Quando comecei a fazer filmes cômicos fazia só pelo dinheiro - a arte apareceu por acaso. Se isso decepcionar alguém, nada posso fazer. É a verdade.
VRB – É óbvio que o dinheiro resolve muitos problemas, mas não todos. Há pessoas cujo grande problema é ganhar cada vez mais dinheiro. Então, ganhar dinheiro e mais dinheiro passa a ser uma obsessão, um vício.
Chaplin – Mais dinheiro significa mais problemas. Quando era criança pobre passei por muitos infortúnios... o dinheiro me trouxe outros.
VRB – O que há de comum entre você e Carlitos?
Chaplin - Na_verdade a personagem Carlitos - essa figura que não sou eu, mas que se assemelha comigo como a um irmão - é para mim uma terrível responsabilidade.
VRB – A criação artística e literária é quase sempre uma catarse.Você representou magistralmente a personalidade de Hitler no seu filme O Grande Ditador. O que significou essa representação para você? Até que ponto se envolveu e se identificou com a personalidade de um ditador?
Chaplin – Todas as minhas aspirações secretas, contidas, são satisfeitas quando escrevo e realizo um filme como O Grande Ditador. Entre o ditador e eu, não consigo distinguir qual é o verdadeiro Chaplin.
VRB – Que outras personalidades você gostaria de representar? Seria fiel a elas ou as recriaria?
Chaplin – As duas personalidades que eu mais desejaria recriar em um filme seriam Napoleão e Jesus Cristo... Não representaria Napoleão como um general poderoso, mas como um ser fraco, taciturno, quase melancólico e sempre importunado pelos membros de sua família. Quanto ao Cristo, gostaria também de modificá-lo no espírito das massas. Acho que a personagem mais forte, mais dinâmica e mais importante que já existiu, acabou por ser terrivelmente deformada pela tradição. Mostrá-lo-ia, então, acolhido em delírio por homens, mulheres, e crianças. As pessoas iriam ao seu encontro para sentir seu magnetismo. Não mais seria um homem piedoso, triste e distanciado; um solitário que acabou por ser o maior incompreendido de todos os tempos.
VRB – A opinião pública influiu em sua carreira cinematográfica?
Chaplin – Em toda a minha carreira cinematográfica sempre me guiei, em grande parte, pela opinião pública. Essa opinião chegava a mim através de cartas que recebia, em conversas pessoais, mas sobretudo por intermédio da imprensa. Do mesmo modo, também me convenci de que a contribuição que estou prestando com a realização de meus filmes é bem maior do que aquela que poderia oferecer se estivesse nas trincheiras servindo à causa da guerra.
VRB – Há pessoas que pensam - inclusive eu - que o patriotismo é um sentimento até certo ponto mórbido, porque resulta em fanatismo beligerante e preconceito contra outros povos.
Chaplin - De fato, não sou um patriota - e não somente por motivos morais ou intelectuais, mas também porque é sentimento que não possuo. Como tolerar patriotismo quando em seu nome foram assassinados seis milhões de judeus? Pode-se dizer que isso aconteceu na Alemanha; não obstante, esses impulsos homicidas estão latentes em todas as nações.
Se matamos uma só pessoa, somos assassinos. Se matamos milhões de homens, celebram-nos como heróis. Felicitam-se os que inventam bombas para matar mulheres e crianças.
VRB – Há algum político oculto em Charles Chaplin?
Chaplinn – Não sou político; sou principalmente um individualista. Creio na liberdade; nisso se resume a minha política... Sou pelos homens; essa é a minha natureza.
VRB – Entendo a política como a mais bem sucedida arte de mentir.
Chaplin – Não faço de nenhum político do passado ou do presente um herói digno de ser adorado.
VRB – Por isso, é necessário estarmos atentos ao que se passa no mundo da política para não sermos envolvidos e manipulados pelas tramas e sortilégios dos seus participantes.
Chaplin – Ignorar a situação política do mundo em que vivemos seria como esconder a cabeça na areia. É preciso ser muito idiota para tentar ignorá-la, quando todos nós fazemos parte dela.
VRB – Todos nós temos um ideário de valores. Qual é o seu?
Chaplin – Sou um defensor da liberdade, da justiça e da verdade. Certamente não pretendo fazer nenhuma revolução - não é a minha vocação. Sou a favor do povo.
VRB – Como Chaplin se percebe no mundo? Sente que faz parte dele ou se sente um estrangeiro? Pensa que o conhece ou se sente confuso no seu relacionamento com ele?
Chaplin – Faço parte do mundo - e no entanto ele me torna perplexo.
Durante mais de trinta anos, vivi num autêntico aquário. Toda a minha vida era submetida à publicidade e a toda espécie de pressões. Mas, quaisquer que sejam as minhas opiniões pessoais, insisto na sua integridade inabalável. Mantenho-me nelas e assim farei até que encontre razões válidas para as abandonar.
VRB – E em relação ao mundo artístico?
Chaplin - Receio pelo nosso futuro. Nosso mundo já não é o mundo dos grandes artistas. É um mundo espumante, agitado, amargo, um mundo invadido, inundado pela política...
VRB – As religiões sempre exaltaram a pobreza e satanizaram a riqueza. Por que a pobreza é uma virtude? O pobre gosta de ser pobre ou, na verdade, ele deseja sair da pobreza, embora nem todos anseiem pela riqueza?
Chaplin – Nunca achei a pobreza atrativa nem edificante. O que ela me ensinou foi só uma distorção de valores. Fortuna e fama, por outra parte, ensinaram-me a ver o mundo tal como é, a descobrir que homens das mais elevadas posições se mostram, quando observados de perto, com tantas deficiências como o resto de nós. Fortuna e fama também me ensinaram a ter desdém pelos brasões e pelas comendas, que não passam de pretensiosidades. Ensinaram-me a conhecer que o mérito e a inteligência dos homens não podem ser julgados pelos requintes de pronúncia aprendidos em universidades -mito que tem exercido influência paralisante no espírito das classes médias inglesas. Ensinaram-me a saber que inteligência não é necessariamente produto de educação ou conhecimento dos clássicos.
VRB – A existência tem algum sentido? Ou somos nós que damos sentido à existência?
Chaplin – Não posso crer que nossa existência não tenha sentido, que seja mero acidente, como nos querem convencer alguns cientistas. A vida e a morte são determinadas demais, por demais implacáveis, para que sejam puramente acidentais.
VRB – A emoção é um dos alicerces da pessoa humana. A razão, por si só, não constrói o entendimento do mundo. Como o cinema pode contribuir para a compreensão do ser humano?
Chaplin – Creio no riso e nas lágrimas como antídotos contra o ódio e o terror. Os bons filmes constituem uma linguagem internacional, respondem à necessidade que os homens têm de alegria, de piedade e de compreensão. São um meio de dissipar a onda de angústia e de medo que invade o mundo de hoje... Se pudéssemos pelo menos trocar entre as nações, em grande quantidade, os filmes que não constituem uma propaganda agressiva, mas que falam a linguagem simples dos homens e das mulheres simples... isso poderia contribuir para salvar o mundo do desastre.
VRB – As religiões dão muita ênfase ao sofrimento e quase nenhuma importância à alegria.
Chaplin – Estou sempre alegre - essa é a minha maneira de resolver os problemas da vida. Tenho a impressão de que os homens estão perdendo o dom do riso.
VRB – Há algum país que você especialmente admira?
Chaplin – Para mim, a Itália representa o berço da cultura, da arte e do progresso. Mas sua primeira qualidade é a beleza.
VRB – Para o místico, o silêncio é o caminho da compreensão, da autodescoberta, da libertação dos condicionamentos. É difícil encontrar o silêncio no mundo cada vez mais ruidoso. Parece que o barulho exterior protege as pessoas contra o silêncio que as intimida.
Chaplin – O silêncio - algo que não pode ser comprado - quantos de nós saberíamos defrontá-lo? Os ricos compram o barulho. No entanto, nosso espírito se realiza quando estamos mergulhados no silêncio natural - esse silêncio que jamais recusa aqueles que o procuram..
O som aniquila a grande beleza do silêncio.
VRB – Caso você tenha fé, que importância tem ela em sua vida?
Chaplin – À medida que vou envelhecendo, mais me preocupa a questão da fé. Ela está em nossa vida bem mais do que supomos e inspira as nossas ações bem mais do que imaginamos. Creio que a fé é precursora de todas as nossas idéias. Sem fé não teríamos criado hipóteses, teorias, ciência ou matemática. Penso que a fé é uma extensão do espírito. É a chave que abre a porta do impossível. Negar a fé é refutar a si mesmo e ao espírito que gera todas as nossas forças criadoras.
Minha fé é no desconhecido, em tudo que não podemos compreender por meio da razão; creio que o que está acima do nosso entendimento é apenas um fato em outras dimensões e que no reino do desconhecido há uma infinita reserva de poder.
VRB – Qual a sua opinião sobre os literatos, os artistas e os cientistas?
Chaplin – Os literatos são encantadores, porém não muito dadivosos; transmitem raramente aos outros o que sabem; na grande maioria, escondem-no sob a capa de seus livros.
Os cientistas podem ser ótimos companheiros, mas sua mera presença num salão inibe a inteligência dos demais. Os pintores aborrecem, porque, na maior parte, gostariam de nos convencer que são mais filósofos do que pintores. Sem dúvida, os poetas constituem uma classe superior e como indivíduos são agradáveis, tolerantes e de excelente convívio. Creio, entretanto, que os músicos em geral têm mais senso de cooperação do que qualquer outra espécie de gente.
VRB – Há pessoas que só se sentem bem na solidão. É nela que se reconstroem e aprendem a conviver consigo mesmas. Por isso, se afastam do tumulto da multidão, embora não vivam como anacoretas.
Chaplin – A solidão é repelente. Tem uma aura de tristeza, uma inadequação para atrair ou interessar, a tal ponto que nos sentimos ligeiramente envergonhados quando ela nos rodeia. Mas, num grau maior ou menor, atinge a todos.
VRB – É o ser humano o resultado de sua estrutura genética ou dos condicionamentos sociais ou, ainda, de uma combinação entre esses dois elementos?
Chaplin – A Humanidade não se divide em heróis e tiranos. Suas paixões, boas e más, foram-lhes dadas pela sociedade, não pela Natureza.
VRB – Qual a importância da sexualidade na vida do ser humano?
Chaplin – Procriar é a principal ocupação da natureza e todo homem, seja moço ou velho, quando vem a conhecer uma mulher indaga a si mesmo que possibilidades haverá de relação sexual entre os dois. E era sempre o que acontecia comigo.
VRB – Todas as suas criações o emocionam? Acha que, por isso, elas contagiam o público?
Chaplin – Se o autor não se emociona com a sua própria criação, dificilmente pode esperar que outros o façam. Com franqueza, divirto-me com as minhas comédias mais do que o público.
VRB – Em todas as épocas tudo está em transição, embora o ritmo das mudanças possa ser rápido ou lento. Na nossa época, no entanto, as mudanças estão intensamente aceleradas e, por isso, deixando as pessoas comuns, principalmente, as mais velhas, perdidas e confusas.
Chaplin – Creio que é oportuno transmitir a impressão que tenho sobre a situação do mundo. A complexidade crescente da vida moderna e o ritmo alucinante do século XX encurralaram o homem em gigantescas instituições que o ameaçam por todas as formas, política, científica e economicamente. Começamos a sofrer como que um condicionamento da alma, submetidos a sanções e permissões.
Essa matriz a que temos de nos amoldar deve-se à carência de uma concepção cultural. Entramos às cegas numa existência feia e congestionada. Perdemos a noção do belo. O sentido do nosso viver está sendo embotado pela preocupação do lucro, pelo poder e pelo monopólio. E temos consentido que tais forças nos envolvam, sem nos dar conta das suas conseqüências nefastas.
Sem filosofia orientadora e sem o senso de responsabilidade, a ciência entregou a políticos e militares armas tão destruidoras que eles têm nas mãos o destino de todos os viventes sobre a Terra.
VRB – O acelerado processo da ciência e da tecnologia ensejou um preocupante descompasso com os padrões éticos e morais da humanidade, abalados, por sua vez, pelo fenômeno da globalização e o inevitável confronto entre as culturas.
Chaplin – O homem é um animal com instintos elementares de sobrevivência. Por conseguinte, desenvolveu primeiramente a sua engenhosidade e só depois a sua alma. Assim, o progresso da ciência tem sido muito mais rápido do que o da conduta moral do homem.
VRB – Qual seria, então, a solução para esse impasse? Os povos, na quase totalidade, desconhecem os verdadeiros desafios do nosso mundo tecnológico, assim como a gravidade e a dimensão de seus problemas. As pessoas vivem deslumbradas em um mundo de tantas maravilhas e os dirigentes das nações poderosas estão embevecidos pelo poder e as possibilidades de dominação sobre os outros povos, principalmente aqueles que lhes são concorrentes.
Chaplin – Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade.
Disse Carlyle que a salvação do mundo será obtida quando o povo der para pensar. Mas, a fim de que tal aconteça, é preciso que o povo se veja diante de grave desafio.
Ora, dividindo o átomo, o homem ficou encurralado e na obrigação de pensar. Tem de escolher entre a própria destruição ou uma conduta ajuizada. O avanço da ciência força-o a fazer a opção. Creio que o altruísmo acabará por vencer e há de imperar o amor pela humanidade.
VRB – Então...
Chaplin – Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à juventude e segurança à velhice.
VRB – Embora eu seja um cético em relação a isso, espero que essa sua esperança se concretize.
Mas, finalizando a entrevista, como você se sente na condição de uma pessoa famosa em um mundo cada vez mais competitivo?
Chaplin – Reconheço que o tempo e as circunstâncias me têm favorecido. O mundo cumulou-me de afeições, inspirei amor e também ódio. Deu-me a vida o que havia de melhor e um pouco do pior. Quaisquer que tenham sido as minhas vicissitudes, creio que a ventura e a desventura são filhas do acaso, pairando como nuvens sobre o nosso destino. Com essa compreensão, nunca me abalam demais as coisas ruins que me acontecem, ou agradavelmente surpreendido pelo que vem de bom. Não sigo um roteiro de existência, nenhuma filosofia... Sábios ou tolos, temos todos que batalhar com a vida. Oscilo em meio a contradições: exasperam-me às vezes fatos mínimos, e catástrofes poderão deixar-me indiferente. Contudo, a minha vida é hoje mais apaixonante do que nunca.
Fonte: Valter da Rosa Borges
Entrevista com Gandhi

Mohandas Karamchand Gandhi (1869-1948), mais conhecido como "Mahatma" (grande alma) Gandhi, foi o líder espiritual e político de mais de 250 milhões de hindus. Pela prédica e prática do seu pacifismo conquistou a admiração de seu povo e do mundo inteiro, culminando na libertação da Índia do governo britânico.
Terminou a sua vida assassinado por um hindu enfurecido em 30 de setembro de 1948, durante uma reunião de oração.
Sobre Gandhi, disse Albert Einstein:
"Futuras gerações dificilmente acreditarão que tenha passado sobre a face da terra, em carne e osso, um homem como Gandhi."
Terminou a sua vida assassinado por um hindu enfurecido em 30 de setembro de 1948, durante uma reunião de oração.
Sobre Gandhi, disse Albert Einstein:
"Futuras gerações dificilmente acreditarão que tenha passado sobre a face da terra, em carne e osso, um homem como Gandhi."
Entrevista com Mahatman Gandhi
VRB – O Ocidente percebe o sistema de castas, ainda existente na Índia, como equivocado, estático e retrógrado, impossibilitando a dinâmica social e prefixando a posição dos indivíduos na sociedade. Você admite que este sistema é ainda válido no mundo moderno?
Gandhi – O sistema de castas é, a meu ver, inerente à natureza humana, e o Hinduísmo fez dele apenas uma ciência.
Considero o sistema de quatro castas como uma sã repartição do trabalho antes do nascimento.
Poder passar de uma casta a outra no curso de uma encarnação dará como resultado uma grande fraude.
A concepção atual das castas é uma percepção do original.
VRB – O que é mais importante, no seu modo de ver: o amor ou a verdade?
Gandhi – O amor pode derivar da Verdade ou ser ligado à Verdade. A Verdade e o Amor são um só e mesma coisa. Tenho, entretanto, uma certa fraqueza pela Verdade. Numa última análise, não se pode ter senão uma só realidade. A Verdade, a mais alta, não precisa ser fundamentada. A Verdade é o fim, o Amor o meio para chegar até lá. Sabemos o que é o Amor ou a não--violência, tanto que temos dificuldade em observar a lei. Mas quanto à Verdade, não conhecemos mais que uma parcela. É difícil ao homem chegar a um conhecimento perfeito da Verdade, assim como lhe é difícil a prática perfeita da não-violência.
VRB – Pode o ser humano conhecer a verdade?
Gandhi – Não é dado ao homem conhecer a Verdade total; o seu dever está em viver de acordo com a Verdade na medida que ele a percebeu; e, em procedendo assim, deve recorrer aos meios mais puros, isto é, à não-violência.
VRB – Cada religião se arroga de possuir a verdade. E, por isso, litigam entre si. Qual delas é detentora da verdade ou nenhuma delas a tem?
Gandhi – As verdades diferentes na aparência são como inúmeras folhas que parecem diferentes e estão na mesma árvore.
A Verdade habita no coração de todo homem, e é ali que devemos procurá-la e viver de acordo com ela, na medida da nossa compreensão. Mas ninguém tem o direito de obrigar outros a viverem segundo a verdade assim como ele mesmo a enxerga.
VRB – O que caracteriza uma pessoa que dedica a sua vida à verdade?
Gandhi – Aquele que consagra toda a atividade à Verdade, que exige um desinteresse absoluto, não tem tempo disponível para a ocupação egoísta de engendrar filhos e dirigir uma casa.
Se um homem dá o seu amor a uma mulher ou a mulher a um homem, que lhes resta dar ao mundo?
VRB – Qual seria, então, a situação de uma pessoa que busca a verdade, embora seja casada? Seria isso um impeditivo para sua busca?
Gandhi – Qual é, então, a situação das pessoas já casadas? Nunca poderão realizar a Verdade? Não poderão jamais ofertar-se no altar da humanidade? Existe para esses uma solução. Podem conduzir-se como se não fossem casados. Aqueles que já sentiram a alegria deste estado podem confirmar minhas palavras. De meu conhecimento muitos são os que tentaram esta experiência com sucesso. Se os esposos podem considerar-se como irmão e irmã, estarão disponíveis para servir à humanidade. A idéia que todas as mulheres da terra são irmãs, mães, filhas, enobrece imediatamente um homem e corta seus grilhões. O marido e a esposa não perdem nada com isso, não fazem senão ampliar o melhor de si, para dar aos que os rodeiam, a eles mesmos e a sua família. Seu amor se liberta de toda a impureza do desejo e se torna mais forte. Com o desaparecimento dessa impureza eles poderão servir-se melhor mutuamente, e as querelas tornam-se mais raras, pois o amor, sendo egoísta e estreito, sempre dá grandes oportunidades para as disputas.
Se pudermos reconhecer o valor das considerações acima, a questão do proveito físico que se obtém na castidade não tem senão importância secundária. Como é cego aquele que gasta, deliberadamente, sua energia nos prazeres sensuais! Ê um grave abuso dissipar na procura de prazeres físicos aquilo que foi dado para que o homem e a mulher pudessem desenvolver plenamente seus poderes corporais e mentais. Tal abuso é a causa profunda da maior parte dos males.
VRB – Quem busca a verdade deve optar pelo celibato voluntário? Há algo que facilite a vida do celibatário?
Gandhi – Constatei, por experiência própria, que o celibato torna-se mais fácil quando conseguimos dominar nosso paladar.
VRB – Além disso, o domínio do paladar exerce alguma influência em nossa saúde?
Gandhi – Como conseqüência de um amor mal compreendido, os pais dão a seus filhos uma alimentação variada, estragando sua saúde e criando neles gostos artificiais. Quando as crianças se tornam adultas, seus corpos já estão doentes e o paladar pervertido. As conseqüências nefastas desta fraqueza durante os primeiros anos nos atormentam a cada passo; gastamos muito dinheiro e somos presa fácil da medicina.
A maior parte de nós, ao invés de dominar os órgãos dos sentidos, torna-se seu escravo. Um médico de longa experiência dizia, um dia, que jamais vira um homem são. O corpo é prejudicado cada vez que se come muito, e tal prejuízo só pode ser reparado — em parte — pelo jovem.
O ideal seria que o sol fosse nosso único cozinheiro.
VRB – Há pessoas que adotam a alimentação vegetariana principalmente por motivo espiritual. Que influência tem esse tipo de dieta em relação à saúde orgânica e/ou psíquica?
Gandhi – A experiência mostra que o alimento de origem animal não convém àqueles que querem dominar suas paixões. Mas será errôneo atribuir um grande papel à alimentação na formação do caráter ou no domínio da carne. O regime alimentar é um fator importante que não podemos negligenciar, mas resumir toda a religião em termos de alimentação, como se costuma fazer na Índia, é tão falso quanto deixar-se levar livremente pelo seu apetite.
VRB – Qual a importância da vida sexual no relacionamento entre o ser humano e Deus? Há uma modalidade do Tantra que vê na atividade sexual um caminho para esse relacionamento.
Gandhi – Realizar Deus é impossível sem uma renúncia absoluta do desejo sexual.
As verdadeiras leis da santidade exigem que o homem que perde a mulher — assim como a mulher que perde o homem — não se casem nunca mais.
É melhor gozar através do corpo que do pensamento. É bom procurar rejeitar os desejos sexuais desde que aparecem no espírito, experimentar dominá-los; mas se, à falta de gozos físicos, o espírito voltar-se para pensamentos de gozos físicos, será legítimo satisfazer os apetites do corpo. Não tenho dúvida sobre isto.
VRB – Há um conflito milenar entre as religiões, porque cada uma se acha dona exclusiva da verdade. Muitas guerras resultaram da intolerância religiosa. É possível que, um dia, as religiões se respeitam reciprocamente ou, ao menos, tolerem as suas diferenças?
Gandhi – Não gosto do termo tolerância, mas não encontro outro melhor. A tolerância pode pressupor, gratuitamente, que a fé da pessoa é inferior à nossa, enquanto que o ahimsâ nos ensina a ter, com a fé do próximo, o mesmo respeito que temos com a nossa — na qual reconhecemos também imperfeições. Tal admissão seria fácil àquele que procura a Verdade, àquele que obedece à lei do Amor. Se chegássemos à plena visão da Verdade não seríamos mais procuradores, mas estaríamos diante de Deus, pois a Verdade é Deus. Mas como estamos ainda procurando, perseguimos nosso ideal conscientes de nossa imperfeição. Ora, se somos imperfeitos, a religião, tal como a concebemos, também é imperfeita. Não realizamos a religião na sua perfeição, assim como não realizamos Deus. Pois a religião tal como a concebemos é imperfeita, é sempre susceptível de evolução e reinterpretação. O progresso para a Verdade, para Deus, não é possível senão em razão desta evolução. E se todas as concepções religiosas que representam os homens são imperfeitas, não podemos levantar problemas de inferioridade ou superioridade de uma com relação a outra. Todas as fés constituem revelações da Verdade, mas todas são imperfeitas e falíveis. O respeito que experimentamos por outras fés não deve impedir-nos de ver os defeitos. Devemos sempre estar conscientes dos defeitos de nossa própria fé e, entretanto, não abandoná-la por isso, mas tentar triunfar sobre os defeitos. Se considerarmos sem parcialidade todas as outras religiões, não hesitaremos em misturá-las a nossa, nas suas características desejáveis e mais nos estimaremos por ter cumprido um dever.
Aí a questão se coloca: porque tantas fés diferentes? A Alma é uma, mas os corpos que ela anima são numerosos. Não podemos reduzir o número dos corpos e entretanto reconhecemos a unidade da Alma. É o mesmo que uma árvore que só tem um tronco mas muitos ramos e folhas, assim também há uma só Religião verdadeira e perfeita, mas ela se torna múltipla na passagem do humano. A religião única está além do domínio da linguagem. Os homens imperfeitos não podem exprimi-la senão com a linguagem que dispõem, e suas palavras são interpretadas por outros homens igualmente imperfeitos. Qual a interpretação que devemos aceitar como verdadeira? Cada razão tem seu próprio ponto de vista, mas não é impossível que todo mundo esteja errado. Daí a necessidade da tolerância, que não é indiferença com sua própria fé, mas um amor mais puro e mais inteligente para com essa fé. A tolerância nos dá o poder da penetração espiritual que é tão afastado do fanatismo quanto o pólo sul do pólo norte. O verdadeiro conhecimento da religião faz cair as barreiras entre as fés. Cultivando em nós mesmo a tolerância para outras concepções, adquiriremos da nossa uma compreensão verdadeira.
Na realidade há tantas religiões quanto os indivíduos.
VRB – Podemos viver sem religião?
Gandhi – A vida sem religião é uma vida sem princípio, e uma vida sem princípio é como um barco sem direção.
VRB – Qual é mais importante: a razão ou a fé?
Gandhi – A fé transcende a razão; o único conselho que posso dar é o de não tentar o impossível. Não posso explicar a existência do mal com nenhum argumento racional. Tentar isto seria igualar-se a Deus.
VRB – Qual a sua atitude em relação à Divindade?
Gandhi – Anseio por ver Deus face a face. O Deus que eu conheço se chama Verdade. Para mim, o único caminho certo para conhecer a Deus é a não-violência (ahimsa) o amor.
Eu não vi Deus, nem O conheço. Fiz da fé que o mundo tem em Deus a minha fé; e, sendo a minha fé inextinguível, faço da minha fé a minha experiência pessoal.
Deus é o universo.
VRB – Dizem os espiritualistas que a oração é uma forma de relação com Deus. Para isso, recorrem à orações padronizadas, mantras e preces coletivas.
Gandhi – A oração não necessita de palavras.
A oração é a chave da manhã e o ferrolho da noite.
É melhor colocar o coração na oração e nada dizer do que dizer palavras que não estão no coração.
VRB – Há pensadores que se insurgem contra a posse e a propriedade, taxando-as de furto. Qual sua opinião a respeito?
Gandhi – É um furto tomar alguma coisa que pertence ao próximo, mesmo com a permissão do proprietário, quando, verdadeiramente, não precisamos dela. Não devemos receber um único objeto de que não precisemos. Tal tipo de furto recai, principalmente, nos alimentos. Se eu como uma fruta que não me é necessária, ou se tomo mais do que necessito, cometo um furto. Não se conhece sempre as necessidades, e a maior partes de nós multiplica suas precisões sem justificação; assim nos tornamos, inconscientemente, ladrões. Se quisermos refletir mais sobre isso, veremos que nos é possível eliminar uma quantidade de necessidades que temos atualmente. Aquele que observa a regra da abstenção do furto reduzirá, progressivamente, as suas. Uma grande parte da miséria que vemos no mundo é resultado de infrações a este princípio de abstenção do furto.
O furto, tal qual vimos, pode ser chamado furto material ou exterior. Há, ainda, uma espécie mais sutil e muito mais aviltante para o espírito humano. Desejar mentalmente qualquer coisa que pertença a outro, ou olhar tal coisa com cobiça, é também um furto. Considera-se, geralmente, que aquele que não se alimenta, materialmente falando, jejua, mas ele será culpado de furto e de uma ruptura de seu jejum, se contemplar uma imagem mental de prazer gustativo, quando ver outras pessoas comendo. Ele é culpado da mesma maneira se, durante o seu jejum, pensar, continuadamente, em pratos os mais variados, que ele poderá saborear após sua abstinência.
Aquele que observa a regra da abstenção do furto recusará qualquer preocupação que possa adquirir no futuro. A inquietude nefasta do futuro é a origem de muitos furtos. Hoje, não faremos mais que desejar uma coisa, mas amanhã começaremos a tomar certas medidas, as mais honestas possíveis, desonestas até se necessário, para possuir esta coisa.
É possível furtar-se idéias assim como objetos materiais. Aquele que pretende, egoisticamente, ser o instigador ou o autor de uma boa idéia que na realidade não é sua, será culpado de furto de idéias. Muitos sábios, na História do mundo, foram culpados deste tipo de furto, e o plagiador não é coisa rara, mesmo em nossos dias. Se, por exemplo, vejo em Andhra um novo modelo de roca e fabrico uma semelhante em Ashram, fazendo-a passar como minha invenção, estarei mentindo, e está claro que estarei furtando uma invenção que pertence a alguém.
VRB – Se a alma é imaterial, ela não está localizada espacialmente, embora muitas pessoas tenham passado pelo que se chama experiência fora do corpo.
Gandhi – A alma é onipresente; porque ficaria fechada num corpo semelhante a uma gaiola?
VRB – O medo é um comportamento inerente a todos os seres vivos como um mecanismo de sobrevivência. No entanto, os seres humanos desenvolveram novas forma de medo que não dizem respeito à defesa de sua vida. Como conseqüência, valorizou-se a coragem como forma de neutralizar o medo. Você, por exemplo, sempre revelou ser um homem corajoso a ponto de, por meio da não-violência, libertar a Índia do domínio inglês.
Gandhi – A intrepidez revela que o indivíduo está liberto de todo temor externo, que é o das doenças, das feridas físicas, da morte ou de perder seus bens, de perder os familiares, os que lhe são caros, perder sua reputação, ofender o próximo, etc. Aquele que venceu o temor da morte não venceu ainda todos os outros temores, como se supõe geralmente. Alguns entre nós já não temem a morte, mas não podem suportar a perda de seus entes queridos. Certos avaros suportam tudo, mas não a perda de seus bens. Outros farão qualquer coisa para manter seu pretenso prestígio; outros se desviarão do caminho certo e difícil que vêem claramente diante de si, simplesmente porque têm medo da censura da sociedade. Aquele que procura a Verdade deve superar todos os temores.
VRB – E o que fazer para conseguir essa coragem que você chama de intrepidez?
Gandhi – A intrepidez perfeita não pode ser alcançada senão por aquele que realizou o Supremo, pois ela implica uma total libertação de ilusões. Podemos nos aproximar disto se fizermos um esforço real e perseverante, e se confiarmos em nós mesmos.
Como já disse antes, é preciso desembaraçar-nos de todo o temor externo. Mas é preciso, também, não descuidar dos inimigos internos. Temos razão quando receamos a paixão bestial, a cólera, etc. Os temores externos cessarão por si quando triunfarmos sobre os perigos dentro de nós. O corpo é o centro de todos os temores e onde eles evoluem. Conseqüentemente, eles desaparecem desde que se libertem de toda ligação com o corpo. Vemos, assim, que todo o temor externo é tecido sem nenhuma base por nossa maneira de ver as coisas. O temor não tem lugar no coração se nos desligarmos de toda riqueza, da família e do corpo.
VRB – Além de líder espiritual, você foi também um líder político. Por isso, faço-lhe uma pergunta: qual seria a solução para o conflito entre o capital e o trabalho?
Gandhi – Como um homem que não trabalha pode ter o direito de comer? "Tu terás teu pão com o suor de teu rosto", nos diz a Bíblia. Um milionário não viverá muito tempo e se cansará logo da vida se permanecer em seu leito todo o dia, alimentando-se. O apetite vem do exercício. Se cada um, rico ou pobre, fizesse qualquer tipo de exercício, por que tal exercício não ser produtivo, por que não consistir, por exemplo, na maneira de ganhar seu pão? Ninguém pergunta ao agricultor sobre seus movimentos respiratórios e musculares. E grande parte da humanidade vive da agricultura! Como o mundo seria mais feliz, mais são e pacífico se todos seguissem o exemplo dessa maioria, que se faz auto-suficiente para poder alimentar-se, através de seu trabalho. Muitas privações associadas à vida agrícola desapareceriam facilmente se todos se unissem. As odiosas distinções de classe terminariam se cada um, sem exceção, reconhecesse a obrigação de ganhar seu pão através de seu próprio trabalho.
Existe um conflito mundial entre o capital e o trabalho, e os pobres invejam os ricos. Se cada um trabalhasse para ganhar seu pão, as distinções de classe seriam abolidas; os ricos continuariam ricos mas se considerariam apenas gerentes de sua fortuna, que empregariam para o interesse geral.
VRB – O que podemos fazer para melhorar a humanidade? Como podemos prestar serviços que melhorem a qualidade de vida dos outros? E em que isso também nos poderá melhorar como seres humanos?
Gandhi – Uma vida consagrada a servir, deve ser uma vida de humildade. Aquele que sacrifica sua vida pelo próximo, não tem tempo para assegurar seu lugar ao sol. É preciso não confundir inércia e humildade, como se tem feito no hinduísmo. A verdadeira humildade exige uma consagração inteira a serviço da humanidade, o mais árduo esforço, a maior constância. Deus está sempre em ação, sem um instante de repouso. Se queremos servi-lo ou chegar até Ele, nossa atividade deve ser infatigável, tanto quanto a Sua. A gota d'água que se separa do oceano pode encontrar momentaneamente repouso, mas a que está no oceano não conhece descanso. O mesmo acontece conosco. Desde que nos juntamos ao oceano (Deus) não mais teremos repouso, e não mais teremos desejos. Nosso próprio sono é ação, pois quando dormimos estamos com o pensamento de Deus em nosso coração. É esta atividade contínua que constitui o verdadeiro descanso. Esta agitação incessante contém o segredo da paz inefável. Tal estado supremo de total abandono é difícil de descrever, mas não está fora do alcance do homem.
VRB – Há pessoas que afirmam que a violência só se combate com a violência, e que não reagir a violência é contribuir para fortalecer os atos praticados pelos indivíduos violentos. Acha que a não-violência (ahimsâ) é o antídoto da violência?
Gandhi – Oponho-me à violência pois quando ela parece produzir o bem, tal bem não tem senão resultado transitório, enquanto que o mal produzido é permanente.
A violência é sempre violência e é sempre um pecado. Mas o que é inevitável não pode ser considerado como pecado.
Quando formos escolher entre a covardia e a violência, creio que eu aconselharia a violência...
Mas estou persuadido que a não-violência é infinitamente superior à violência. Creio que o perdão é mais nobre que o castigo.
Não posso conceber um estado de hostilidade permanente entre um homem e outro. Pois, crendo na reencarnação, vivo na esperança que, se não nesta vida humana mas numa outra, poderei cingir toda a humanidade num fraternal abraço.
VRB – Há pessoas cuja nocividade é uma permanente ameaça à sociedade. E tudo leva a crer que são irrecuperáveis em virtude de uma patologia considerada incurável. Qual sua opinião a respeito?
Gandhi – Nenhum ser humano é tão nocivo para não ser salvo. Nenhum ser humano é bastante perfeito para ter o direito de matar aquele que considera como inteiramente nocivo.
VRB – A ahimsâ, neste caso, é um perdão para todas as pessoas violentas, mesmo para aquelas que não se arrependem dos seus crimes?
Gandhi – A ahimsâ é o extremo limite do perdão. E o perdão é próprio do homem corajoso. A ahimsâ não é compatível com o temor.
A não-violência tem por condição imprescindível o poder de comover. É uma repressão consciente e deliberada do desejo de vingança que o faz sobressair. A vingança é sempre superior à submissão passiva, fraca, covarde, mas a vingança também é fraqueza. O desejo de vingança nasce do temor de um mal imaginário ou real. Aquele que não teme ninguém na terra achará difícil ter cólera contra alguém que não lhe faça mal.
A não-violência não se realiza mecanicamente. Ela é a mais alta qualidade do coração e se adquire pela prática.
Procuremos, agora, quais são as raízes próprias do ahimsâ. É o esquecimento de si próprio de forma mais absoluta. Esquecimento de si significando que se está completamente livre de toda a preocupação pelo corpo. Se um homem decide conhecer a si mesmo, isto é, realizar a Verdade, só poderá fazê-lo libertando-se completamente de seu corpo, isto é, fazendo com que qualquer outra criatura tenha diante dele um sentimento de segurança. Tal é o caminho do ahimsâ.
VRB – Há algum caso em que a pena de morte seja admissível?
Gandhi – Matar pode ser um dever. Nós destruímos tudo o que julgamos necessário para o nosso corpo. Assim, matamos para comer... Para salvar a espécie, matamos animais carnívoros. Mesmo o homicídio pode ser necessário em certos casos. Suponhamos que um homem fique louco e agressivo, e com a espada na mão massacre todas as pessoas que encontre. Se ninguém ousar dominar este ser, aquele que executar este louco merecerá o reconhecimento da comunidade e será considerado como benfeitor.
VRB – Você, em alguma circunstância especial, é favorável à eutanásia?
Gandhi – Tenho um horror instintivo em matar seres viventes em qualquer circunstância. Propõe-se mesmo que deveríamos prender cães raivosos e deixá-los morrer lentamente. A idéia que eu faço de caridade faz-me achar tal solução absolutamente inaceitável. Não posso ver, nem por instantes, um cão, ou qualquer outra criatura, abandonado sem recurso às torturas de uma longa agonia. Se diante das mesmas circunstâncias eu encontrar um ser humano e não lhe der a morte, será porque disponho de remédios mais eficazes. Mas se eu matar um cão que se encontra no mesmo caso, será porque não tenho outra maneira de ajudá-lo. Se meu filho tiver a raiva e se não existir nenhum remédio para aliviar seu sofrimento, considerarei meu dever dar-lhe a morte. O fatalismo tem limites. Devemos nos abandonar à sorte somente quando todos os remédios foram utilizados. Um dos meios, que é definitivo, para ajudar uma criança nas torturas atrozes de seu sofrimento, é dar-lhe a morte.
VRB – O que fazer para reduzir efetivamente o índice de pobreza, sem se apelar para medidas apenas paliativas?
Gandhi - Cada dia a natureza produz o suficiente para nossas carências. Se cada um tomasse o que lhe fosse necessário não haveria pobreza no mundo e ninguém morreria de inanição.
Se todos os homens compreendessem a eterna lei moral do serviço à humanidade, considerariam como pecado acumular riqueza; então, não haveria mais desigualdade e, conseqüentemente, não haveria falta de víveres e nem pessoas morrendo
de fome.
VRB – O que você diz da prática do assistencialismo como uma das formas de ajudar às pessoas necessitadas?
Gandhi – Meu ahimsâ não me permitiria dar uma refeição gratuita a um homem são, que não trabalha honestamente para ganhá-la. Se eu tivesse poder, suspenderia todo sadâvrata (casa de caridade) onde se dá refeições por nada. Tal hábito faz degenerar nosso povo e a posse da preguiça, da ociosidade e da hipocrisia é um crime.
VRB – Você lutou, como ninguém, pela liberdade de seu país. E o conseguiu. Apesar disso, você sacrificaria seu país para salvar o mundo?
Gandhi – Um país deve ser livre para poder morrer, se necessário, para o bem do mundo. Minha concepção do nacionalismo, meu amor ao nacionalismo é que meu país possa morrer para que as raças humanas possam viver.
Não sacrifico a verdade ainda que seja para salvar meu país e minha religião.
VRB – O Ocidente percebe o sistema de castas, ainda existente na Índia, como equivocado, estático e retrógrado, impossibilitando a dinâmica social e prefixando a posição dos indivíduos na sociedade. Você admite que este sistema é ainda válido no mundo moderno?
Gandhi – O sistema de castas é, a meu ver, inerente à natureza humana, e o Hinduísmo fez dele apenas uma ciência.
Considero o sistema de quatro castas como uma sã repartição do trabalho antes do nascimento.
Poder passar de uma casta a outra no curso de uma encarnação dará como resultado uma grande fraude.
A concepção atual das castas é uma percepção do original.
VRB – O que é mais importante, no seu modo de ver: o amor ou a verdade?
Gandhi – O amor pode derivar da Verdade ou ser ligado à Verdade. A Verdade e o Amor são um só e mesma coisa. Tenho, entretanto, uma certa fraqueza pela Verdade. Numa última análise, não se pode ter senão uma só realidade. A Verdade, a mais alta, não precisa ser fundamentada. A Verdade é o fim, o Amor o meio para chegar até lá. Sabemos o que é o Amor ou a não--violência, tanto que temos dificuldade em observar a lei. Mas quanto à Verdade, não conhecemos mais que uma parcela. É difícil ao homem chegar a um conhecimento perfeito da Verdade, assim como lhe é difícil a prática perfeita da não-violência.
VRB – Pode o ser humano conhecer a verdade?
Gandhi – Não é dado ao homem conhecer a Verdade total; o seu dever está em viver de acordo com a Verdade na medida que ele a percebeu; e, em procedendo assim, deve recorrer aos meios mais puros, isto é, à não-violência.
VRB – Cada religião se arroga de possuir a verdade. E, por isso, litigam entre si. Qual delas é detentora da verdade ou nenhuma delas a tem?
Gandhi – As verdades diferentes na aparência são como inúmeras folhas que parecem diferentes e estão na mesma árvore.
A Verdade habita no coração de todo homem, e é ali que devemos procurá-la e viver de acordo com ela, na medida da nossa compreensão. Mas ninguém tem o direito de obrigar outros a viverem segundo a verdade assim como ele mesmo a enxerga.
VRB – O que caracteriza uma pessoa que dedica a sua vida à verdade?
Gandhi – Aquele que consagra toda a atividade à Verdade, que exige um desinteresse absoluto, não tem tempo disponível para a ocupação egoísta de engendrar filhos e dirigir uma casa.
Se um homem dá o seu amor a uma mulher ou a mulher a um homem, que lhes resta dar ao mundo?
VRB – Qual seria, então, a situação de uma pessoa que busca a verdade, embora seja casada? Seria isso um impeditivo para sua busca?
Gandhi – Qual é, então, a situação das pessoas já casadas? Nunca poderão realizar a Verdade? Não poderão jamais ofertar-se no altar da humanidade? Existe para esses uma solução. Podem conduzir-se como se não fossem casados. Aqueles que já sentiram a alegria deste estado podem confirmar minhas palavras. De meu conhecimento muitos são os que tentaram esta experiência com sucesso. Se os esposos podem considerar-se como irmão e irmã, estarão disponíveis para servir à humanidade. A idéia que todas as mulheres da terra são irmãs, mães, filhas, enobrece imediatamente um homem e corta seus grilhões. O marido e a esposa não perdem nada com isso, não fazem senão ampliar o melhor de si, para dar aos que os rodeiam, a eles mesmos e a sua família. Seu amor se liberta de toda a impureza do desejo e se torna mais forte. Com o desaparecimento dessa impureza eles poderão servir-se melhor mutuamente, e as querelas tornam-se mais raras, pois o amor, sendo egoísta e estreito, sempre dá grandes oportunidades para as disputas.
Se pudermos reconhecer o valor das considerações acima, a questão do proveito físico que se obtém na castidade não tem senão importância secundária. Como é cego aquele que gasta, deliberadamente, sua energia nos prazeres sensuais! Ê um grave abuso dissipar na procura de prazeres físicos aquilo que foi dado para que o homem e a mulher pudessem desenvolver plenamente seus poderes corporais e mentais. Tal abuso é a causa profunda da maior parte dos males.
VRB – Quem busca a verdade deve optar pelo celibato voluntário? Há algo que facilite a vida do celibatário?
Gandhi – Constatei, por experiência própria, que o celibato torna-se mais fácil quando conseguimos dominar nosso paladar.
VRB – Além disso, o domínio do paladar exerce alguma influência em nossa saúde?
Gandhi – Como conseqüência de um amor mal compreendido, os pais dão a seus filhos uma alimentação variada, estragando sua saúde e criando neles gostos artificiais. Quando as crianças se tornam adultas, seus corpos já estão doentes e o paladar pervertido. As conseqüências nefastas desta fraqueza durante os primeiros anos nos atormentam a cada passo; gastamos muito dinheiro e somos presa fácil da medicina.
A maior parte de nós, ao invés de dominar os órgãos dos sentidos, torna-se seu escravo. Um médico de longa experiência dizia, um dia, que jamais vira um homem são. O corpo é prejudicado cada vez que se come muito, e tal prejuízo só pode ser reparado — em parte — pelo jovem.
O ideal seria que o sol fosse nosso único cozinheiro.
VRB – Há pessoas que adotam a alimentação vegetariana principalmente por motivo espiritual. Que influência tem esse tipo de dieta em relação à saúde orgânica e/ou psíquica?
Gandhi – A experiência mostra que o alimento de origem animal não convém àqueles que querem dominar suas paixões. Mas será errôneo atribuir um grande papel à alimentação na formação do caráter ou no domínio da carne. O regime alimentar é um fator importante que não podemos negligenciar, mas resumir toda a religião em termos de alimentação, como se costuma fazer na Índia, é tão falso quanto deixar-se levar livremente pelo seu apetite.
VRB – Qual a importância da vida sexual no relacionamento entre o ser humano e Deus? Há uma modalidade do Tantra que vê na atividade sexual um caminho para esse relacionamento.
Gandhi – Realizar Deus é impossível sem uma renúncia absoluta do desejo sexual.
As verdadeiras leis da santidade exigem que o homem que perde a mulher — assim como a mulher que perde o homem — não se casem nunca mais.
É melhor gozar através do corpo que do pensamento. É bom procurar rejeitar os desejos sexuais desde que aparecem no espírito, experimentar dominá-los; mas se, à falta de gozos físicos, o espírito voltar-se para pensamentos de gozos físicos, será legítimo satisfazer os apetites do corpo. Não tenho dúvida sobre isto.
VRB – Há um conflito milenar entre as religiões, porque cada uma se acha dona exclusiva da verdade. Muitas guerras resultaram da intolerância religiosa. É possível que, um dia, as religiões se respeitam reciprocamente ou, ao menos, tolerem as suas diferenças?
Gandhi – Não gosto do termo tolerância, mas não encontro outro melhor. A tolerância pode pressupor, gratuitamente, que a fé da pessoa é inferior à nossa, enquanto que o ahimsâ nos ensina a ter, com a fé do próximo, o mesmo respeito que temos com a nossa — na qual reconhecemos também imperfeições. Tal admissão seria fácil àquele que procura a Verdade, àquele que obedece à lei do Amor. Se chegássemos à plena visão da Verdade não seríamos mais procuradores, mas estaríamos diante de Deus, pois a Verdade é Deus. Mas como estamos ainda procurando, perseguimos nosso ideal conscientes de nossa imperfeição. Ora, se somos imperfeitos, a religião, tal como a concebemos, também é imperfeita. Não realizamos a religião na sua perfeição, assim como não realizamos Deus. Pois a religião tal como a concebemos é imperfeita, é sempre susceptível de evolução e reinterpretação. O progresso para a Verdade, para Deus, não é possível senão em razão desta evolução. E se todas as concepções religiosas que representam os homens são imperfeitas, não podemos levantar problemas de inferioridade ou superioridade de uma com relação a outra. Todas as fés constituem revelações da Verdade, mas todas são imperfeitas e falíveis. O respeito que experimentamos por outras fés não deve impedir-nos de ver os defeitos. Devemos sempre estar conscientes dos defeitos de nossa própria fé e, entretanto, não abandoná-la por isso, mas tentar triunfar sobre os defeitos. Se considerarmos sem parcialidade todas as outras religiões, não hesitaremos em misturá-las a nossa, nas suas características desejáveis e mais nos estimaremos por ter cumprido um dever.
Aí a questão se coloca: porque tantas fés diferentes? A Alma é uma, mas os corpos que ela anima são numerosos. Não podemos reduzir o número dos corpos e entretanto reconhecemos a unidade da Alma. É o mesmo que uma árvore que só tem um tronco mas muitos ramos e folhas, assim também há uma só Religião verdadeira e perfeita, mas ela se torna múltipla na passagem do humano. A religião única está além do domínio da linguagem. Os homens imperfeitos não podem exprimi-la senão com a linguagem que dispõem, e suas palavras são interpretadas por outros homens igualmente imperfeitos. Qual a interpretação que devemos aceitar como verdadeira? Cada razão tem seu próprio ponto de vista, mas não é impossível que todo mundo esteja errado. Daí a necessidade da tolerância, que não é indiferença com sua própria fé, mas um amor mais puro e mais inteligente para com essa fé. A tolerância nos dá o poder da penetração espiritual que é tão afastado do fanatismo quanto o pólo sul do pólo norte. O verdadeiro conhecimento da religião faz cair as barreiras entre as fés. Cultivando em nós mesmo a tolerância para outras concepções, adquiriremos da nossa uma compreensão verdadeira.
Na realidade há tantas religiões quanto os indivíduos.
VRB – Podemos viver sem religião?
Gandhi – A vida sem religião é uma vida sem princípio, e uma vida sem princípio é como um barco sem direção.
VRB – Qual é mais importante: a razão ou a fé?
Gandhi – A fé transcende a razão; o único conselho que posso dar é o de não tentar o impossível. Não posso explicar a existência do mal com nenhum argumento racional. Tentar isto seria igualar-se a Deus.
VRB – Qual a sua atitude em relação à Divindade?
Gandhi – Anseio por ver Deus face a face. O Deus que eu conheço se chama Verdade. Para mim, o único caminho certo para conhecer a Deus é a não-violência (ahimsa) o amor.
Eu não vi Deus, nem O conheço. Fiz da fé que o mundo tem em Deus a minha fé; e, sendo a minha fé inextinguível, faço da minha fé a minha experiência pessoal.
Deus é o universo.
VRB – Dizem os espiritualistas que a oração é uma forma de relação com Deus. Para isso, recorrem à orações padronizadas, mantras e preces coletivas.
Gandhi – A oração não necessita de palavras.
A oração é a chave da manhã e o ferrolho da noite.
É melhor colocar o coração na oração e nada dizer do que dizer palavras que não estão no coração.
VRB – Há pensadores que se insurgem contra a posse e a propriedade, taxando-as de furto. Qual sua opinião a respeito?
Gandhi – É um furto tomar alguma coisa que pertence ao próximo, mesmo com a permissão do proprietário, quando, verdadeiramente, não precisamos dela. Não devemos receber um único objeto de que não precisemos. Tal tipo de furto recai, principalmente, nos alimentos. Se eu como uma fruta que não me é necessária, ou se tomo mais do que necessito, cometo um furto. Não se conhece sempre as necessidades, e a maior partes de nós multiplica suas precisões sem justificação; assim nos tornamos, inconscientemente, ladrões. Se quisermos refletir mais sobre isso, veremos que nos é possível eliminar uma quantidade de necessidades que temos atualmente. Aquele que observa a regra da abstenção do furto reduzirá, progressivamente, as suas. Uma grande parte da miséria que vemos no mundo é resultado de infrações a este princípio de abstenção do furto.
O furto, tal qual vimos, pode ser chamado furto material ou exterior. Há, ainda, uma espécie mais sutil e muito mais aviltante para o espírito humano. Desejar mentalmente qualquer coisa que pertença a outro, ou olhar tal coisa com cobiça, é também um furto. Considera-se, geralmente, que aquele que não se alimenta, materialmente falando, jejua, mas ele será culpado de furto e de uma ruptura de seu jejum, se contemplar uma imagem mental de prazer gustativo, quando ver outras pessoas comendo. Ele é culpado da mesma maneira se, durante o seu jejum, pensar, continuadamente, em pratos os mais variados, que ele poderá saborear após sua abstinência.
Aquele que observa a regra da abstenção do furto recusará qualquer preocupação que possa adquirir no futuro. A inquietude nefasta do futuro é a origem de muitos furtos. Hoje, não faremos mais que desejar uma coisa, mas amanhã começaremos a tomar certas medidas, as mais honestas possíveis, desonestas até se necessário, para possuir esta coisa.
É possível furtar-se idéias assim como objetos materiais. Aquele que pretende, egoisticamente, ser o instigador ou o autor de uma boa idéia que na realidade não é sua, será culpado de furto de idéias. Muitos sábios, na História do mundo, foram culpados deste tipo de furto, e o plagiador não é coisa rara, mesmo em nossos dias. Se, por exemplo, vejo em Andhra um novo modelo de roca e fabrico uma semelhante em Ashram, fazendo-a passar como minha invenção, estarei mentindo, e está claro que estarei furtando uma invenção que pertence a alguém.
VRB – Se a alma é imaterial, ela não está localizada espacialmente, embora muitas pessoas tenham passado pelo que se chama experiência fora do corpo.
Gandhi – A alma é onipresente; porque ficaria fechada num corpo semelhante a uma gaiola?
VRB – O medo é um comportamento inerente a todos os seres vivos como um mecanismo de sobrevivência. No entanto, os seres humanos desenvolveram novas forma de medo que não dizem respeito à defesa de sua vida. Como conseqüência, valorizou-se a coragem como forma de neutralizar o medo. Você, por exemplo, sempre revelou ser um homem corajoso a ponto de, por meio da não-violência, libertar a Índia do domínio inglês.
Gandhi – A intrepidez revela que o indivíduo está liberto de todo temor externo, que é o das doenças, das feridas físicas, da morte ou de perder seus bens, de perder os familiares, os que lhe são caros, perder sua reputação, ofender o próximo, etc. Aquele que venceu o temor da morte não venceu ainda todos os outros temores, como se supõe geralmente. Alguns entre nós já não temem a morte, mas não podem suportar a perda de seus entes queridos. Certos avaros suportam tudo, mas não a perda de seus bens. Outros farão qualquer coisa para manter seu pretenso prestígio; outros se desviarão do caminho certo e difícil que vêem claramente diante de si, simplesmente porque têm medo da censura da sociedade. Aquele que procura a Verdade deve superar todos os temores.
VRB – E o que fazer para conseguir essa coragem que você chama de intrepidez?
Gandhi – A intrepidez perfeita não pode ser alcançada senão por aquele que realizou o Supremo, pois ela implica uma total libertação de ilusões. Podemos nos aproximar disto se fizermos um esforço real e perseverante, e se confiarmos em nós mesmos.
Como já disse antes, é preciso desembaraçar-nos de todo o temor externo. Mas é preciso, também, não descuidar dos inimigos internos. Temos razão quando receamos a paixão bestial, a cólera, etc. Os temores externos cessarão por si quando triunfarmos sobre os perigos dentro de nós. O corpo é o centro de todos os temores e onde eles evoluem. Conseqüentemente, eles desaparecem desde que se libertem de toda ligação com o corpo. Vemos, assim, que todo o temor externo é tecido sem nenhuma base por nossa maneira de ver as coisas. O temor não tem lugar no coração se nos desligarmos de toda riqueza, da família e do corpo.
VRB – Além de líder espiritual, você foi também um líder político. Por isso, faço-lhe uma pergunta: qual seria a solução para o conflito entre o capital e o trabalho?
Gandhi – Como um homem que não trabalha pode ter o direito de comer? "Tu terás teu pão com o suor de teu rosto", nos diz a Bíblia. Um milionário não viverá muito tempo e se cansará logo da vida se permanecer em seu leito todo o dia, alimentando-se. O apetite vem do exercício. Se cada um, rico ou pobre, fizesse qualquer tipo de exercício, por que tal exercício não ser produtivo, por que não consistir, por exemplo, na maneira de ganhar seu pão? Ninguém pergunta ao agricultor sobre seus movimentos respiratórios e musculares. E grande parte da humanidade vive da agricultura! Como o mundo seria mais feliz, mais são e pacífico se todos seguissem o exemplo dessa maioria, que se faz auto-suficiente para poder alimentar-se, através de seu trabalho. Muitas privações associadas à vida agrícola desapareceriam facilmente se todos se unissem. As odiosas distinções de classe terminariam se cada um, sem exceção, reconhecesse a obrigação de ganhar seu pão através de seu próprio trabalho.
Existe um conflito mundial entre o capital e o trabalho, e os pobres invejam os ricos. Se cada um trabalhasse para ganhar seu pão, as distinções de classe seriam abolidas; os ricos continuariam ricos mas se considerariam apenas gerentes de sua fortuna, que empregariam para o interesse geral.
VRB – O que podemos fazer para melhorar a humanidade? Como podemos prestar serviços que melhorem a qualidade de vida dos outros? E em que isso também nos poderá melhorar como seres humanos?
Gandhi – Uma vida consagrada a servir, deve ser uma vida de humildade. Aquele que sacrifica sua vida pelo próximo, não tem tempo para assegurar seu lugar ao sol. É preciso não confundir inércia e humildade, como se tem feito no hinduísmo. A verdadeira humildade exige uma consagração inteira a serviço da humanidade, o mais árduo esforço, a maior constância. Deus está sempre em ação, sem um instante de repouso. Se queremos servi-lo ou chegar até Ele, nossa atividade deve ser infatigável, tanto quanto a Sua. A gota d'água que se separa do oceano pode encontrar momentaneamente repouso, mas a que está no oceano não conhece descanso. O mesmo acontece conosco. Desde que nos juntamos ao oceano (Deus) não mais teremos repouso, e não mais teremos desejos. Nosso próprio sono é ação, pois quando dormimos estamos com o pensamento de Deus em nosso coração. É esta atividade contínua que constitui o verdadeiro descanso. Esta agitação incessante contém o segredo da paz inefável. Tal estado supremo de total abandono é difícil de descrever, mas não está fora do alcance do homem.
VRB – Há pessoas que afirmam que a violência só se combate com a violência, e que não reagir a violência é contribuir para fortalecer os atos praticados pelos indivíduos violentos. Acha que a não-violência (ahimsâ) é o antídoto da violência?
Gandhi – Oponho-me à violência pois quando ela parece produzir o bem, tal bem não tem senão resultado transitório, enquanto que o mal produzido é permanente.
A violência é sempre violência e é sempre um pecado. Mas o que é inevitável não pode ser considerado como pecado.
Quando formos escolher entre a covardia e a violência, creio que eu aconselharia a violência...
Mas estou persuadido que a não-violência é infinitamente superior à violência. Creio que o perdão é mais nobre que o castigo.
Não posso conceber um estado de hostilidade permanente entre um homem e outro. Pois, crendo na reencarnação, vivo na esperança que, se não nesta vida humana mas numa outra, poderei cingir toda a humanidade num fraternal abraço.
VRB – Há pessoas cuja nocividade é uma permanente ameaça à sociedade. E tudo leva a crer que são irrecuperáveis em virtude de uma patologia considerada incurável. Qual sua opinião a respeito?
Gandhi – Nenhum ser humano é tão nocivo para não ser salvo. Nenhum ser humano é bastante perfeito para ter o direito de matar aquele que considera como inteiramente nocivo.
VRB – A ahimsâ, neste caso, é um perdão para todas as pessoas violentas, mesmo para aquelas que não se arrependem dos seus crimes?
Gandhi – A ahimsâ é o extremo limite do perdão. E o perdão é próprio do homem corajoso. A ahimsâ não é compatível com o temor.
A não-violência tem por condição imprescindível o poder de comover. É uma repressão consciente e deliberada do desejo de vingança que o faz sobressair. A vingança é sempre superior à submissão passiva, fraca, covarde, mas a vingança também é fraqueza. O desejo de vingança nasce do temor de um mal imaginário ou real. Aquele que não teme ninguém na terra achará difícil ter cólera contra alguém que não lhe faça mal.
A não-violência não se realiza mecanicamente. Ela é a mais alta qualidade do coração e se adquire pela prática.
Procuremos, agora, quais são as raízes próprias do ahimsâ. É o esquecimento de si próprio de forma mais absoluta. Esquecimento de si significando que se está completamente livre de toda a preocupação pelo corpo. Se um homem decide conhecer a si mesmo, isto é, realizar a Verdade, só poderá fazê-lo libertando-se completamente de seu corpo, isto é, fazendo com que qualquer outra criatura tenha diante dele um sentimento de segurança. Tal é o caminho do ahimsâ.
VRB – Há algum caso em que a pena de morte seja admissível?
Gandhi – Matar pode ser um dever. Nós destruímos tudo o que julgamos necessário para o nosso corpo. Assim, matamos para comer... Para salvar a espécie, matamos animais carnívoros. Mesmo o homicídio pode ser necessário em certos casos. Suponhamos que um homem fique louco e agressivo, e com a espada na mão massacre todas as pessoas que encontre. Se ninguém ousar dominar este ser, aquele que executar este louco merecerá o reconhecimento da comunidade e será considerado como benfeitor.
VRB – Você, em alguma circunstância especial, é favorável à eutanásia?
Gandhi – Tenho um horror instintivo em matar seres viventes em qualquer circunstância. Propõe-se mesmo que deveríamos prender cães raivosos e deixá-los morrer lentamente. A idéia que eu faço de caridade faz-me achar tal solução absolutamente inaceitável. Não posso ver, nem por instantes, um cão, ou qualquer outra criatura, abandonado sem recurso às torturas de uma longa agonia. Se diante das mesmas circunstâncias eu encontrar um ser humano e não lhe der a morte, será porque disponho de remédios mais eficazes. Mas se eu matar um cão que se encontra no mesmo caso, será porque não tenho outra maneira de ajudá-lo. Se meu filho tiver a raiva e se não existir nenhum remédio para aliviar seu sofrimento, considerarei meu dever dar-lhe a morte. O fatalismo tem limites. Devemos nos abandonar à sorte somente quando todos os remédios foram utilizados. Um dos meios, que é definitivo, para ajudar uma criança nas torturas atrozes de seu sofrimento, é dar-lhe a morte.
VRB – O que fazer para reduzir efetivamente o índice de pobreza, sem se apelar para medidas apenas paliativas?
Gandhi - Cada dia a natureza produz o suficiente para nossas carências. Se cada um tomasse o que lhe fosse necessário não haveria pobreza no mundo e ninguém morreria de inanição.
Se todos os homens compreendessem a eterna lei moral do serviço à humanidade, considerariam como pecado acumular riqueza; então, não haveria mais desigualdade e, conseqüentemente, não haveria falta de víveres e nem pessoas morrendo
de fome.
VRB – O que você diz da prática do assistencialismo como uma das formas de ajudar às pessoas necessitadas?
Gandhi – Meu ahimsâ não me permitiria dar uma refeição gratuita a um homem são, que não trabalha honestamente para ganhá-la. Se eu tivesse poder, suspenderia todo sadâvrata (casa de caridade) onde se dá refeições por nada. Tal hábito faz degenerar nosso povo e a posse da preguiça, da ociosidade e da hipocrisia é um crime.
VRB – Você lutou, como ninguém, pela liberdade de seu país. E o conseguiu. Apesar disso, você sacrificaria seu país para salvar o mundo?
Gandhi – Um país deve ser livre para poder morrer, se necessário, para o bem do mundo. Minha concepção do nacionalismo, meu amor ao nacionalismo é que meu país possa morrer para que as raças humanas possam viver.
Não sacrifico a verdade ainda que seja para salvar meu país e minha religião.
Fonte: Valter da Rosa Borges
DIÁLOGOS IMAGINÁRIOS
Valter da Rosa Borges
Os diálogos foram montados, utilizando textos de livros escritos por pensadores vivos e mortos.
Nenhum dos diálogos é definitivo, porque pode ser ampliado com novos textos, enriquecendo, ainda mais, o seu conteúdo.
RELIGIÃO
Nenhum dos diálogos é definitivo, porque pode ser ampliado com novos textos, enriquecendo, ainda mais, o seu conteúdo.
RELIGIÃO
VRB – A religião é um caminho coletivo. Mas a religiosidade é um caminho pessoal, pois resulta da relação direta entre o ser individual e o Todo. O homem, portanto, pode filiar-se a uma religião e não ter religiosidade. Mas quem tem religiosidade não necessita de religião, embora, pelos motivos mais diversos, possa pertencer a religião que mais se aproxima de sua concepção da Divindade.
Toda teologia não passa de um faz de conta. O que chamamos de dogmas são as regras deste jogo. E o jogo parece real para os jogadores, os quais, zelosamente, observam suas regras.
O que leva o homem a ser religioso?
Ralph Emerson – As religiões que chamamos de falsas já foram verdadeiras um dia.
Ludwig Feuerbach – Os homens em geral só são religiosos na dificuldade, na privação e na desgraça.
Sêneca – A religião é considerada verdade pelas pessoas comuns, mentira pelos sábios e útil pelos governantes.
Goethe – As pessoas felizes não acreditam em milagres.
VRB – Há pessoas felizes que acreditam em milagres. E também as infelizes. Milagre é questão de fé.
Bakunin – Os teólogos dizem: isso são mistérios insondáveis. Ao que respondemos: são absurdidades imaginadas por vós próprios. Começais por inventar o absurdo, depois fazei-nos dele a imposição como mistério divino, insondável e tanto mais profundo quando mais absurdo. É sempre o mesmo procedimento: credo quia absurdum [creio porque é absurdo].
Bertrand Russell – Muitos indivíduos ortodoxos dão a entender que é papel dos céticos refutar os dogmas apresentados – em vez de os dogmáticos terem de prová-los. Essa idéia, obviamente, é um erro. De minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um pote de chá chinês girando em torno do Sol em uma órbita elíptica, e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, tendo em vista que teria o cuidado de acrescentar que o pote de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos. Mas se afirmasse que, devido à minha asserção não poder ser refutada, seria uma presunção intolerável da razão humana duvidar dela, com razão pensariam que estou falando uma tolice. Entretanto, se a existência de tal pote de chá fosse afirmada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada todo domingo e instilada nas mentes das crianças na escola, a hesitação de crer em sua existência seria sinal de excentricidade.
Anatole France – Todos os homens que não sabem o que fazer desta vida desejam outra, que nunca acabe.
Isaac Asimov – Todas as religiões são a verdade sagrada para quem tem a fé mas não passam de fantasia para os fiéis das outras religiões.
Ralph Emerson – Deus constrói o seu templo no nosso coração sobre as ruínas das igrejas e das religiões.
Joseph Campbell – Mitologia é o nome que damos às religiões dos outros.
Schopenhauer – A religião pode ser comparada a alguém que pega um cego pela mão e o guia, pois este é incapaz de enxergar por si próprio, tendo como preocupação chegar ao seu destino, não olhar tudo pelo caminho.
Stendhal – Todas as religiões são fundadas sobre o temor de muitos e a esperteza de poucos.
VRB - Em alguns casos, a religião é refúgio e consolo para as pessoas infelizes, Esperança de justiça para os que se julgam injustiçados. Salvação para os que se sentem perdidos. E sedativo para os angustiados.
Bakunin – Estamos convencidos de que o pior mal, tanto para a humanidade quanto para a verdade e o progresso, é a Igreja. Poderia ser de outra forma? Pois não cabe à Igreja a tarefa de perverter as gerações mais novas e especialmente as mulheres? Não é ela que, através de seus dogmas, suas mentiras, sua estupidez e sua ignomínia tenta destruir o pensamento lógico e a ciência? Não é ela que ameaça a dignidade do homem, pervertendo suas idéias sobre o que é bom e o que é justo? Não é ela que transforma os vivos em cadáveres, despreza a liberdade e prega a eterna escravidão das massas em benefício dos tiranos e dos exploradores? Não é essa mesma Igreja implacável que procura perpetuar o reino das sombras, da ignorância, da pobreza e do crime? Se não quisermos que o progresso seja, em nosso século, um sonho mentiroso, devemos acabar com a Igreja.
Karl Marx – A religião é o ópio do povo.
Ludwig Feuerbach – O homem crê em deuses não só porque ele possui fantasias e sentimentos, mas também porque ele tem o instinto de ser feliz. Ele crê num ser feliz, não só porque tem uma idéia da felicidade, mas também porque ele quer ser feliz; ele crê num ser perfeito, porque ele próprio quer ser perfeito; ele crê num ser imortal, porque ele próprio não quer morrer. Tudo o que ele não é, mas quer ser, imagina como existente em seus deuses; os deuses são os desejos do homem pensados como reais, transformados em entidades reais; um Deus é a ânsia de felicidade do homem, satisfeita na fantasia. Se o homem não tivesse desejos, não teria religião nem deuses, apesar da fantasia e do sentimento. E quão diversos forem os desejos, tão diversos serão os deuses, e os desejos são tão diversos quanto os próprios homens. Quem não tem como objeto de seus desejos a sabedoria e a inteligência, quem não quer ser sábio e inteligente, este não tem também uma deusa da sabedoria como objeto de sua religião.
A religião é pois a essência infantil do homem. Ou, então, na religião, o homem é uma criança. A criança não consegue realizar seus desejos pela própria força,, por sua iniciativa própria, por isso volta-se com pedidos aos seres dos quais ela sabe e sente depender, a seus pais, para através deles conseguir o que quer.
Schopenhauer – As religiões, assim como as luzes, necessitam de escuridão para brilhar.
André Gide – Só o ateísmo pode pacificar o mundo de hoje.
VRB – Talvez sim. Talvez não. Se o ateísmo dominar o mundo, pode transformar-se em um sucedâneo laico da religião.
Gustave Le Bon – Se o ateísmo se propagasse, tornar-se-ia uma religião tão intolerável como as antigas.
Hermann Hesse – Os que são capazes de viver na fantasia não necessitam de religião.
Bakunin – As pessoas vão à igreja pelos mesmos motivos que vão à taverna: para estupefazerem-se, para esquecerem-se de sua miséria, para imaginarem-se, de algum modo, livres e felizes.
Bertrand Russell – Considero todas as grandes religiões do mundo – budismo, cristianismo, islamismo, comunismo, não só como falsas, como prejudiciais.
Lucrécio – Na verdade, aqueles suplícios que dizem existir no profundo Inferno, estão todos aqui, nas nossas vidas.
Assim como as crianças, que no escuro tremem de medo e temem tudo, nós, na claridade, às vezes temos receio de certas coisas que não são mais terríveis do que aquelas que as crianças temem no escuro e pensam que acontecerão a elas.
Tantos males a religião pôde aconselhar!.
É preciso afugentar com ímpeto esse medo do Inferno que perturba profundamente a vida do homem, estendendo sobre tudo a lúgubre sombra de morte e não deixando existir nenhuma alegria serena e inteira.
Marquês de Sade – Não há outro inferno para o homem além da estupidez ou da maldade dos seus semelhantes.
Freud – Para fugir ao sofrimento, os homens esforçam-se, em conjunto e em grande número, para assegurar proteção contra o mesmo, por meio de uma deformação quimérica da realidade. Portanto, as religiões da humanidade devem ser consideradas delírios desta ordem. Naturalmente, aquele que participa de um delírio não pode reconhecê-lo como tal.
A humanidade sofre de um complexo de Édipo coletivo, cuja doença neurótica é a religião.
Um homem que está livre da religião tem uma oportunidade melhor de viver uma vida mais normal e completa.
A religião é comparável a uma neurose da infância.
Aldous Huxley - O impulso para superar a personalidade autoconsciente é, como já o disse, um anseio capital da alma. Quando, seja por que razão, os seres humanos vêem baldados os seus esforços para superarem a si mesmos pelo culto, pelas boas ações e pela atividade intelectual, tornam-se propensos a recorrer às drogas substitutas da religião — o álcool e as "pílulas inocentes" no moderno Ocidente, o álcool e o ópio no Oriente, o haxixe no Mundo Maometano, o álcool e a maconha na América Central, o álcool e a coca nos Andes, o álcool e os barbituratos nas regiões mais adiantadas da América do Sul. Em Poisons Sacrés, Ivresses Divines (Venenos Sagrados, Êxtases Divinos), Philippe de Félice escreveu exaustivamente, e com riqueza de documentação, sobre os laços imemoriais que ligam a região à ingestão de drogas. A seguir, ora resumindo, ora transcrevendo, apresento suas conclusões:
"O emprego, para fins religiosos, de substâncias tóxicas, é extraordinariamente difundido. .. As práticas podem ser observadas em qualquer região da Terra, tanto entre os povos primitivos como no seio daqueles que já atingiram um elevado índice de civilização. Não estamos, pois lidando com fatos excepcionais que poderiam ser, com razão, postos à margem; mas com um fenômeno geral e, dentro da mais ampla acepção da palavra, humano; com um tipo de fenômeno que não pode ser desprezado por quem quer que busque descobrir que é a religião e quais as necessidades profundas a que ela tem de satisfazer".
Mário Quintana - A teologia é o caminho mais longo para chegar a Deus.
Carl Sagan – Não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar.
Bertrand Russell – Não acredito que, medindo vantagens e desvantagens, a crença religiosa tenha sido uma força a favor do bem. Embora esteja disposto a admitir que em certas épocas e lugares produziu bons resultados, considero-a pertencente à infância do raciocínio humano, a uma fase de desenvolvimento que já estamos superando.
As pessoas dirão que, sem os consolos da religião, elas seriam intoleravelmente infelizes. Tanto quanto este argumento é verdadeiro, também é covarde. Ninguém senão um covarde escolheria conscientemente viver no paraíso dos tolos. Quando um homem suspeita da infidelidade de sua esposa, não lhe dizem que é melhor fechar os olhos à evidência. Não consigo ver a razão pela qual ignorar as evidências deveria ser desprezível em um caso e admirável no outro.
Ashley Montagu – A ciência tem provas sem certeza. Os teólogos têm certeza sem qualquer prova.
Einstein – Se as pessoas são boas só por temerem o castigo e almejarem uma recompensa, então realmente somos um grupo muito desprezível.
A condição dos homens seria lastimável se tivessem de ser domados pelo medo do castigo ou pela esperança de uma recompensa depois da morte.
George B. Shaw – O fato de um crente ser mais feliz que um cético não é mais pertinente que o fato de um homem bêbado ser mais feliz que um sóbrio.
Napoleão Bonaparte – Religião é uma coisa excelente para manter as pessoas comuns quietas.
Sigmund Freud – A religião é um sistema de doutrinas e promessas que, por um lado, lhe explicam os enigmas deste mundo com perfeição invejável e que, por outro lado, lhe garantem que uma Providência cuidadosa velará por sua vida e o compensará, numa existência futura, de quaisquer frustrações que tenha experimentado aqui. O homem comum só pode imaginar essa Providência sob a figura de um pai ilimitadamente engrandecido. Apenas um ser desse tipo pode compreender as necessidades dos filhos dos homens, enternecer-se com suas preces e aplacar-se com os sinais de seu remorso. Tudo é tão patentemente infantil, tão estranho à realidade, que, para qualquer pessoa que manifeste uma atitude amistosa em relação à humanidade, é penoso pensar que a grande maioria dos mortais nunca será capaz de superar essa visão da vida. Mais humilhante ainda é descobrir como é vasto o número de pessoas de hoje que não podem deixar de perceber que essa religião é insustentável e, não obstante isso, tentam defendê-la, item por item, numa série de lamentáveis atos retrógrados.
Os que não padecem desta neurose talvez não precisem de intoxicante para amortecê-la. Encontrar-se-ão, é verdade, numa situação difícil. Terão de admitir para si mesmos toda a extensão de seu desamparo e insignificância na maquinaria do universo; não podem mais ser o centro da criação, o objeto de eterno cuidado de uma Providência beneficente. Estarão na mesma posição de uma criança que abandonou a casa paterna, onde se achava tão bem instalada e tão confortável. Mas não há dúvidas que o infantilismo está destinado a ser superado. Os homens não podem permanecer crianças para sempre; têm de, por fim, sair para a vida ‘hostil’.
Krishnamurti – Religião é a busca da verdade. É a investigação para descobrir o Desconhecido. É uma experiência instantânea daquele estado mental que está fora da continuidade do tempo.
Albert Einstein – Minha religião consiste numa admiração humilde ao Espírito Superior e Ilimitado que se revela a si mesmo nos mínimos pormenores, que estamos aptos a captar com nossas fracas e irrelevantes mentes. A profunda certeza de um Poder Superior que se revela no Universo, difícil de ser compreendido, forma a minha idéia de Deus.
Carl Sagan – Como é possível que praticamente nenhuma religião importante tenha olhado para a ciência e concluído: “Isso é melhor do que imaginávamos! O universo é muito maior do que disseram nossos profetas, mais grandioso, mais sutil, mais elegante”? Em vez disso, dizem: “Não, não, não! Meu deus é um deus pequenininho, e quero que ele continue assim”. Uma religião, antiga ou nova, que ressaltasse a magnificência do universo como a ciência moderna o revelou poderia atrair reservas de reverência e respeito que continuam quase intocadas pelas crenças convencionais.
VRB – Qualquer religião que ensine os seus seguidores a matar e a morrer em nome dela ou de seu deus é um permanente perigo para a humanidade. Os seus líderes transformam pessoas em robôs, hipnotizados por promessas de recompensas no Além.
Napoleão – A religião é aquilo que impede os pobres de matarem os ricos. Todas as religiões foram criadas pelo homem.
Roger Garaudy – A ciência só é rival da fé quando a religião faz de Deus um matemático, um físico taumaturgo ou um alquimista. A técnica só é rival da fé quando a religião faz de Deus um fabricante de mundos.
Albert Einstein – A Ciência não apenas purifica o espírito religioso do azinhavre de seu antropomorfismo, mas contribui também para uma espiritualização religiosa de nossa compreensão da vida.
William James – O fundamento da religião é a fé e as experiências religiosas.
Acredito que o sentimento é a fonte mais profunda da religião e que as fórmulas filosóficas e teológicas são produtos secundários, como as traduções de um texto para outras línguas.
Erich Fromm – A essência da experiência religiosa é a submissão a poderes superiores.
O problema da religião não é o problema de Deus, e sim o problema do homem e, por conseguinte, as formulações e os símbolos religiosos são tentativas para exprimir certos tipos de experiência humana.
Entendo que há dois tipos de religião: a) a autoritária, cuja essência é a submissão a um poder transcendental, onde o homem perde a sua independência e integridade, mas ganha um sentimento de estar protegido por um poder que inspira respeito; b) a humanista, que se centraliza no homem e nas suas potencialidades, cuja virtude consiste na realização pessoal e não na obediência, assim como no sentimento de solidariedade de todas as coisas.
Enquanto na religião autoritária, o tom emocional é de tristeza e culpa, o da religião humanista é de alegria.
A religião pode importar em desenvolvimento ou em paralisação das potencialidades humanas. O ritual funciona como mecanismo de catarse psicológica.
Gandhi – As religiões são caminhos diferentes convergindo para o mesmo ponto. Que importância faz se seguimos por caminhos diferentes, desde que alcancemos o mesmo objetivo?
Fustel de Coulanges – Distingo duas fontes da religião: a) uma interna e que nasce das projeções psicológicas dos homens, exprimindo os "precipitados" subjetivos de sua experiência; b) uma externa, derivada das reações dos homens a forças naturais.
Joachim Wach – Nenhum dos grandes fundadores - Jesus Cristo, Buda, Jaina, Maomé, Zoroastro, Mani, Confúcio, Lao-Tsé - tencionava "fundar uma religião". Cada qual, a seu modo, estava interessado em por em prática uma experiência que se tornou decisiva em sua vida, determinando uma postura peculiar em relação aos problemas existenciais e transcendentais.
Whitehead – A religião é o que o indivíduo faz com a sua própria solidão.
VRB – Infelizmente, cada religião se proclama a única verdadeira, sendo as demais falsas.
Émile Durkheim – Não existem religiões falsas, porque todas elas são essencialmente sociais. São uma projeção da experiência social.
Max Weber – A necessidade racional de uma teodicéia do sofrimento e da morte teve efeitos extremamente fortes. Na realidade, essa necessidade modelou importantes traços de religiões como o hinduísmo, o zoroastrismo e o judaísmo e, até certo ponto, o cristianismo paulino e posterior. Ainda em 1906 uma simples minoria entre um número bastante considerável de proletários mencionou como razões para não acreditarem no cristianismo as conclusões das modernas teorias das Ciências Naturais. A maioria, porém, referiu-se à "injustiça" da ordem do mundo — na verdade, essencialmente porque acreditava numa compensação revolucionária ainda neste mundo.
A teodicéia do sofrimento pode ser colorida de ressentimento. Mas a necessidade de compensação pela insuficiência de nosso destino neste mundo não tem, em geral, o ressentimento como um elemento básico e decisivo. Sem dúvida, a necessidade de vingança teve uma afinidade especial com a convicção de que os injustos se saem melhor neste mundo, apenas o inferno lhes está reservado no outro. A bênção eterna está reservada para os pios; os pecados ocasionais, que, afinal de contas, os pios também cometem, devem portanto ser expiados neste mundo. Não obstante, podemos ver facilmente que nem mesmo esse modo de pensar, que surge ocasionalmente, é determinado pelo ressentimento, e que não é, de forma alguma, o produto de camadas oprimidas socialmente. Veremos que houve apenas alguns exemplos de religião para os quais o ressentimento contribuiu de forma essencial. Entre eles, apenas um se desenvolveu plenamente. Só podemos dizer que o ressentimento poderia ser, e com freqüência o foi em toda parte, significativo como um fator, entre vários, de influência sobre o racionalismo, determinado religiosamente, de camadas socialmente desprivilegiadas. Adquiriu essa significação em graus altamente diversos e com freqüência mínimos de acordo com a natureza das promessas apresentadas pelas diferentes religiões.
De qualquer modo, seria errôneo procurar atribuir o “ascetismo” em geral a tais fontes. A desconfiança da riqueza e poder, que em geral existe nas religiões de salvação autênticas, teve sua base natural principalmente na experiência dos redentores, profetas e sacerdotes. Eles compreenderam que as camadas "saciadas" e favorecidas neste mundo tinham pouco desejo de ser salvas, qualquer que fosse a salvação oferecida. Daí terem sido essas camadas dominantes menos “devotas”, no sentido das religiões de salvação. A evolução de uma ética religiosa racional teve raízes positivas e primárias nas condições íntimas das camadas sociais que eram menos valiosas socialmente.
Aldous Huxley – Parece haver duas razões principais para o observado desenvolvimento das religiões históricas. Primeiro, muitas pessoas não querem espiritualidade e libertação, mas sim uma religião que lhes dê satisfações emocionais, respostas às preces, poderes sobrenaturais e salvação parcial numa espécie de céu póstumo. Segundo, alguns desses poucos que desejam espiritualidade e libertação verificam que, para eles, a forma mais eficaz para atingir esses fins são as cerimônias, "as vãs repetições" e os ritos sacramentais. É pela participação nesses atos e repetindo fórmulas que são mais poderosamente lembrados da Base Eterna de todos os seres; é imergindo nos símbolos que eles podem mais facilmente chegar àquilo que é simbolizado. Cada coisa, evento ou pensamento pode, portanto, ser um ponto de interseção entre a criatura e o criador, entre uma mais ou menos distante manifestação de Deus e um raio, por assim dizer, da Divindade imanifestada; cada coisa, evento ou pensamento pode, portanto, transformar-se numa porta pela qual a alma pode passar do tempo à eternidade. Esta é a razão por que as religiões ritualistas e sacramentais podem levar à libertação. Mas, ao mesmo tempo, todo ser humano ama o poder e o auto-engrandecimento, e toda cerimônia santificada, fórmula ou rito sacramental é um canal através do qual poderá fluir a fascinante energia de um universo psíquico para o universo dos seres corporificados. Esta é a razão por que a religião ritualista e sacramental pode também distanciar-se da libertação.
Joseph Campbell – O judaísmo não busca novos adeptos, mas as outras três – islamismo, cristianismo e comunismo – são tradições assassinas. A meta de cada uma é a total conquista do mundo.
VRB – Os satisfeitos com a vida terrena não se preocupam com a vida espiritual. Não estão à espera de compensações no Além, porque não têm frustrações, nem revolta. A sua religiosidade é apenas social. Somente na doença e proximidade da morte, alguns deles, por temor, se voltam para a religião, com o fito de garantir o seu bem-estar num possível Além.
Para salvar a alma, vale tudo: jejuns, mortificações, preces, caridade, confissão de pecados, renúncia à vida material e orações.
Bertrand Russell – A religião baseia-se, penso eu, principalmente e antes de tudo, no medo. É, em parte, o terror do desconhecido e, em parte, como já o disse, o desejo de sentir que se tem uma espécie de irmão mais velho que se porá de nosso lado em todas as nossas dificuldades e disputas. O medo é a base de toda essa questão: o medo do mistério, o medo da derrota, o medo da morte. O medo é a fonte da crueldade e, por conseguinte, não é de estranhar que a crueldade e a religião tenham andado de mãos dadas. Isso porque o medo é a base dessas duas coisas. Neste mundo, podemos agora começar a compreender um pouco as coisas e a dominá-las com a ajuda da ciência, que abriu caminho, passo a passo, contra a religião cristã, contra as Igrejas e contra a oposição de todos os antigos preceitos. A ciência pode ensinar-nos, e penso que também os nossos corações podem fazê-lo, a não mais procurar apoios imaginários, a não mais inventar aliados no céu, mas a contar antes com os nossos próprios esforços aqui embaixo para tornar este mundo um lugar adequado para viver, ao invés da espécie de lugar a que as igrejas, durante todos estes séculos, o converteram.
Aldous Huxley – A religião como sistema de crenças sempre foi uma força ambivalente. Ela produz ao mesmo tempo a humildade e o que os poetas medievais chamam de "prelado altivo", o tirano eclesiástico. Produz a mais alta forma de arte e a mais baixa forma de superstição. Acende as chamas da caridade e também as fogueiras da Inquisição e aquela que queimou Servetus na Genebra de Calvino. Produz São Francisco e Elizabeth Fry mas também produz Torquemada e Kramer e Springer, autores do Malleus Maleficorum (Malho dos feiticeiros), o grande manual dos caçadores de bruxas publicado no ano em que Colombo descobriu a América. Produz George Fox mas também o Arcebispo Laud. Essa tremenda força da religião como sistema teológico sempre foi ambivalente, exatamente por causa da estranha natureza da crença e da estranha capacidade do homem de inventar respostas fantásticas quando envolve-se em especulações filosóficas.
De modo geral, os mitos têm sido menos perigosos do que os sistemas teológicos porque são menos precisos e têm menos pretensões. Onde existem sistemas teológicos exige-se que essas proposições sobre fatos do passado e futuro, e sobre a estrutura do universo, sejam absolutamente verdadeiras; conseqüentemente, a relutância em aceitá-las é encarada como rebelião contra Deus, merecedora do mais severo castigo. E vemos que, de fato, segundo o registro histórico, esses sistemas têm sido usados como justificação para quase todos os atos de agressão e expansão imperialista. Quase não há um só crime em grande escala na história que não tenha sido cometido em nome de Deus. Isso foi resumido há muitos séculos no hexâmetro de Lucrécio: "Tantum religio potuit suadere malorum"(Tão grandes males a religião persuadiu o homem a cometer). E ele deveria ter acrescentado: "Tantum religio potuit suadere bonorum" (e também persuadiu o homem a fazer tão grandes bens). No entanto, o bem tem de ser pago com uma grande dose de mal.
Nietzsche – Como pode alguém considerar como revelação sua própria opinião sobre as coisas? Esse é o problema da formação das religiões: cada vez um homem entrava em jogo para quem esse fenômeno era possível. A condição prévia era que acreditasse já precedentemente nas revelações. De repente, uma nova idéia lhe vem à mente, sua idéia, e o que há de inebriante numa grande hipótese pessoal que abrange a existência e o mundo inteiro penetra com tanto poder em sua consciência, que ele não ousa julgar-se o criador de uma tal felicidade, atribuindo sua causa, e também a causa que ocasiona esse pensamento novo, a seu deus: enquanto revelação desse deus. Como poderia um homem ser o autor De tão grande felicidade? -pergunta sua dúvida pessimista. Além disso, outras alavancas agem em segredo: por exemplo, reforça-se uma opinião diante de si mesmo, considerando-a como uma revelação, elimina-se assim o que ela tem de hipotético, é subtraída à critica e mesmo à dúvida, e assim é tornada sagrada. É verdade que nos rebaixamos desse modo ao papel de órgão, mas nosso pensamento acaba por ser vitorioso sob o nome de pensamento divino – esse sentimento de permanecer vencedor com ele no final das contas, esse sentimento vence o sentimento de rebaixamento. Outro sentimento se agita muda num segundo plano: quando se eleva o próprio produto acima de si, fazendo aparentemente abstração de seu próprio valor, conserva-se, contudo, uma espécie de alegria do amor paterno e orgulho paternal que apaga tudo, que faz ainda mais que apagar.
Jung – Uma das funções da religião é nos proteger da experiência religiosa.
Michel Montaigne – Os homens tendem a acreditar sobretudo naquilo que menos compreendem.
VRB – Um dos fundamentos da religião é a ação de Deus no mundo em forma de milagre.
Anatole France – Definem-nos o milagre: uma derrogação das leis da natureza. Não as conhecemos; como saberíamos que um fato as derroga?
David Hume – Nenhum depoimento é suficiente para estabelecer um milagre, a menos que o depoimento seja de tal natureza que a sua falsidade seria mais milagrosa que o fato que ele pretende estabelecer.
Mário Quintana – Tudo o que acontece é natural - inclusive o sobrenatural.
Joseph Campbell – Religiões repletas de ornatos e minúcias nos protegem de uma experiência mística explosiva que seria excessiva para nós.
Gandhi – Creio na verdade fundamental de todas as grandes religiões do mundo. Creio que são todas concedidas por Deus e creio que eram necessárias para os povos a quem essas religiões foram reveladas. E creio que se pudéssemos todos ler as escrituras das diferentes fés, sob o ponto de vista de seus respectivos seguidores, haveríamos de descobrir que, no fundo, foram todas a mesma coisa e sempre úteis umas às outras.
Toda teologia não passa de um faz de conta. O que chamamos de dogmas são as regras deste jogo. E o jogo parece real para os jogadores, os quais, zelosamente, observam suas regras.
O que leva o homem a ser religioso?
Ralph Emerson – As religiões que chamamos de falsas já foram verdadeiras um dia.
Ludwig Feuerbach – Os homens em geral só são religiosos na dificuldade, na privação e na desgraça.
Sêneca – A religião é considerada verdade pelas pessoas comuns, mentira pelos sábios e útil pelos governantes.
Goethe – As pessoas felizes não acreditam em milagres.
VRB – Há pessoas felizes que acreditam em milagres. E também as infelizes. Milagre é questão de fé.
Bakunin – Os teólogos dizem: isso são mistérios insondáveis. Ao que respondemos: são absurdidades imaginadas por vós próprios. Começais por inventar o absurdo, depois fazei-nos dele a imposição como mistério divino, insondável e tanto mais profundo quando mais absurdo. É sempre o mesmo procedimento: credo quia absurdum [creio porque é absurdo].
Bertrand Russell – Muitos indivíduos ortodoxos dão a entender que é papel dos céticos refutar os dogmas apresentados – em vez de os dogmáticos terem de prová-los. Essa idéia, obviamente, é um erro. De minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um pote de chá chinês girando em torno do Sol em uma órbita elíptica, e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, tendo em vista que teria o cuidado de acrescentar que o pote de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos. Mas se afirmasse que, devido à minha asserção não poder ser refutada, seria uma presunção intolerável da razão humana duvidar dela, com razão pensariam que estou falando uma tolice. Entretanto, se a existência de tal pote de chá fosse afirmada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada todo domingo e instilada nas mentes das crianças na escola, a hesitação de crer em sua existência seria sinal de excentricidade.
Anatole France – Todos os homens que não sabem o que fazer desta vida desejam outra, que nunca acabe.
Isaac Asimov – Todas as religiões são a verdade sagrada para quem tem a fé mas não passam de fantasia para os fiéis das outras religiões.
Ralph Emerson – Deus constrói o seu templo no nosso coração sobre as ruínas das igrejas e das religiões.
Joseph Campbell – Mitologia é o nome que damos às religiões dos outros.
Schopenhauer – A religião pode ser comparada a alguém que pega um cego pela mão e o guia, pois este é incapaz de enxergar por si próprio, tendo como preocupação chegar ao seu destino, não olhar tudo pelo caminho.
Stendhal – Todas as religiões são fundadas sobre o temor de muitos e a esperteza de poucos.
VRB - Em alguns casos, a religião é refúgio e consolo para as pessoas infelizes, Esperança de justiça para os que se julgam injustiçados. Salvação para os que se sentem perdidos. E sedativo para os angustiados.
Bakunin – Estamos convencidos de que o pior mal, tanto para a humanidade quanto para a verdade e o progresso, é a Igreja. Poderia ser de outra forma? Pois não cabe à Igreja a tarefa de perverter as gerações mais novas e especialmente as mulheres? Não é ela que, através de seus dogmas, suas mentiras, sua estupidez e sua ignomínia tenta destruir o pensamento lógico e a ciência? Não é ela que ameaça a dignidade do homem, pervertendo suas idéias sobre o que é bom e o que é justo? Não é ela que transforma os vivos em cadáveres, despreza a liberdade e prega a eterna escravidão das massas em benefício dos tiranos e dos exploradores? Não é essa mesma Igreja implacável que procura perpetuar o reino das sombras, da ignorância, da pobreza e do crime? Se não quisermos que o progresso seja, em nosso século, um sonho mentiroso, devemos acabar com a Igreja.
Karl Marx – A religião é o ópio do povo.
Ludwig Feuerbach – O homem crê em deuses não só porque ele possui fantasias e sentimentos, mas também porque ele tem o instinto de ser feliz. Ele crê num ser feliz, não só porque tem uma idéia da felicidade, mas também porque ele quer ser feliz; ele crê num ser perfeito, porque ele próprio quer ser perfeito; ele crê num ser imortal, porque ele próprio não quer morrer. Tudo o que ele não é, mas quer ser, imagina como existente em seus deuses; os deuses são os desejos do homem pensados como reais, transformados em entidades reais; um Deus é a ânsia de felicidade do homem, satisfeita na fantasia. Se o homem não tivesse desejos, não teria religião nem deuses, apesar da fantasia e do sentimento. E quão diversos forem os desejos, tão diversos serão os deuses, e os desejos são tão diversos quanto os próprios homens. Quem não tem como objeto de seus desejos a sabedoria e a inteligência, quem não quer ser sábio e inteligente, este não tem também uma deusa da sabedoria como objeto de sua religião.
A religião é pois a essência infantil do homem. Ou, então, na religião, o homem é uma criança. A criança não consegue realizar seus desejos pela própria força,, por sua iniciativa própria, por isso volta-se com pedidos aos seres dos quais ela sabe e sente depender, a seus pais, para através deles conseguir o que quer.
Schopenhauer – As religiões, assim como as luzes, necessitam de escuridão para brilhar.
André Gide – Só o ateísmo pode pacificar o mundo de hoje.
VRB – Talvez sim. Talvez não. Se o ateísmo dominar o mundo, pode transformar-se em um sucedâneo laico da religião.
Gustave Le Bon – Se o ateísmo se propagasse, tornar-se-ia uma religião tão intolerável como as antigas.
Hermann Hesse – Os que são capazes de viver na fantasia não necessitam de religião.
Bakunin – As pessoas vão à igreja pelos mesmos motivos que vão à taverna: para estupefazerem-se, para esquecerem-se de sua miséria, para imaginarem-se, de algum modo, livres e felizes.
Bertrand Russell – Considero todas as grandes religiões do mundo – budismo, cristianismo, islamismo, comunismo, não só como falsas, como prejudiciais.
Lucrécio – Na verdade, aqueles suplícios que dizem existir no profundo Inferno, estão todos aqui, nas nossas vidas.
Assim como as crianças, que no escuro tremem de medo e temem tudo, nós, na claridade, às vezes temos receio de certas coisas que não são mais terríveis do que aquelas que as crianças temem no escuro e pensam que acontecerão a elas.
Tantos males a religião pôde aconselhar!.
É preciso afugentar com ímpeto esse medo do Inferno que perturba profundamente a vida do homem, estendendo sobre tudo a lúgubre sombra de morte e não deixando existir nenhuma alegria serena e inteira.
Marquês de Sade – Não há outro inferno para o homem além da estupidez ou da maldade dos seus semelhantes.
Freud – Para fugir ao sofrimento, os homens esforçam-se, em conjunto e em grande número, para assegurar proteção contra o mesmo, por meio de uma deformação quimérica da realidade. Portanto, as religiões da humanidade devem ser consideradas delírios desta ordem. Naturalmente, aquele que participa de um delírio não pode reconhecê-lo como tal.
A humanidade sofre de um complexo de Édipo coletivo, cuja doença neurótica é a religião.
Um homem que está livre da religião tem uma oportunidade melhor de viver uma vida mais normal e completa.
A religião é comparável a uma neurose da infância.
Aldous Huxley - O impulso para superar a personalidade autoconsciente é, como já o disse, um anseio capital da alma. Quando, seja por que razão, os seres humanos vêem baldados os seus esforços para superarem a si mesmos pelo culto, pelas boas ações e pela atividade intelectual, tornam-se propensos a recorrer às drogas substitutas da religião — o álcool e as "pílulas inocentes" no moderno Ocidente, o álcool e o ópio no Oriente, o haxixe no Mundo Maometano, o álcool e a maconha na América Central, o álcool e a coca nos Andes, o álcool e os barbituratos nas regiões mais adiantadas da América do Sul. Em Poisons Sacrés, Ivresses Divines (Venenos Sagrados, Êxtases Divinos), Philippe de Félice escreveu exaustivamente, e com riqueza de documentação, sobre os laços imemoriais que ligam a região à ingestão de drogas. A seguir, ora resumindo, ora transcrevendo, apresento suas conclusões:
"O emprego, para fins religiosos, de substâncias tóxicas, é extraordinariamente difundido. .. As práticas podem ser observadas em qualquer região da Terra, tanto entre os povos primitivos como no seio daqueles que já atingiram um elevado índice de civilização. Não estamos, pois lidando com fatos excepcionais que poderiam ser, com razão, postos à margem; mas com um fenômeno geral e, dentro da mais ampla acepção da palavra, humano; com um tipo de fenômeno que não pode ser desprezado por quem quer que busque descobrir que é a religião e quais as necessidades profundas a que ela tem de satisfazer".
Mário Quintana - A teologia é o caminho mais longo para chegar a Deus.
Carl Sagan – Não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar.
Bertrand Russell – Não acredito que, medindo vantagens e desvantagens, a crença religiosa tenha sido uma força a favor do bem. Embora esteja disposto a admitir que em certas épocas e lugares produziu bons resultados, considero-a pertencente à infância do raciocínio humano, a uma fase de desenvolvimento que já estamos superando.
As pessoas dirão que, sem os consolos da religião, elas seriam intoleravelmente infelizes. Tanto quanto este argumento é verdadeiro, também é covarde. Ninguém senão um covarde escolheria conscientemente viver no paraíso dos tolos. Quando um homem suspeita da infidelidade de sua esposa, não lhe dizem que é melhor fechar os olhos à evidência. Não consigo ver a razão pela qual ignorar as evidências deveria ser desprezível em um caso e admirável no outro.
Ashley Montagu – A ciência tem provas sem certeza. Os teólogos têm certeza sem qualquer prova.
Einstein – Se as pessoas são boas só por temerem o castigo e almejarem uma recompensa, então realmente somos um grupo muito desprezível.
A condição dos homens seria lastimável se tivessem de ser domados pelo medo do castigo ou pela esperança de uma recompensa depois da morte.
George B. Shaw – O fato de um crente ser mais feliz que um cético não é mais pertinente que o fato de um homem bêbado ser mais feliz que um sóbrio.
Napoleão Bonaparte – Religião é uma coisa excelente para manter as pessoas comuns quietas.
Sigmund Freud – A religião é um sistema de doutrinas e promessas que, por um lado, lhe explicam os enigmas deste mundo com perfeição invejável e que, por outro lado, lhe garantem que uma Providência cuidadosa velará por sua vida e o compensará, numa existência futura, de quaisquer frustrações que tenha experimentado aqui. O homem comum só pode imaginar essa Providência sob a figura de um pai ilimitadamente engrandecido. Apenas um ser desse tipo pode compreender as necessidades dos filhos dos homens, enternecer-se com suas preces e aplacar-se com os sinais de seu remorso. Tudo é tão patentemente infantil, tão estranho à realidade, que, para qualquer pessoa que manifeste uma atitude amistosa em relação à humanidade, é penoso pensar que a grande maioria dos mortais nunca será capaz de superar essa visão da vida. Mais humilhante ainda é descobrir como é vasto o número de pessoas de hoje que não podem deixar de perceber que essa religião é insustentável e, não obstante isso, tentam defendê-la, item por item, numa série de lamentáveis atos retrógrados.
Os que não padecem desta neurose talvez não precisem de intoxicante para amortecê-la. Encontrar-se-ão, é verdade, numa situação difícil. Terão de admitir para si mesmos toda a extensão de seu desamparo e insignificância na maquinaria do universo; não podem mais ser o centro da criação, o objeto de eterno cuidado de uma Providência beneficente. Estarão na mesma posição de uma criança que abandonou a casa paterna, onde se achava tão bem instalada e tão confortável. Mas não há dúvidas que o infantilismo está destinado a ser superado. Os homens não podem permanecer crianças para sempre; têm de, por fim, sair para a vida ‘hostil’.
Krishnamurti – Religião é a busca da verdade. É a investigação para descobrir o Desconhecido. É uma experiência instantânea daquele estado mental que está fora da continuidade do tempo.
Albert Einstein – Minha religião consiste numa admiração humilde ao Espírito Superior e Ilimitado que se revela a si mesmo nos mínimos pormenores, que estamos aptos a captar com nossas fracas e irrelevantes mentes. A profunda certeza de um Poder Superior que se revela no Universo, difícil de ser compreendido, forma a minha idéia de Deus.
Carl Sagan – Como é possível que praticamente nenhuma religião importante tenha olhado para a ciência e concluído: “Isso é melhor do que imaginávamos! O universo é muito maior do que disseram nossos profetas, mais grandioso, mais sutil, mais elegante”? Em vez disso, dizem: “Não, não, não! Meu deus é um deus pequenininho, e quero que ele continue assim”. Uma religião, antiga ou nova, que ressaltasse a magnificência do universo como a ciência moderna o revelou poderia atrair reservas de reverência e respeito que continuam quase intocadas pelas crenças convencionais.
VRB – Qualquer religião que ensine os seus seguidores a matar e a morrer em nome dela ou de seu deus é um permanente perigo para a humanidade. Os seus líderes transformam pessoas em robôs, hipnotizados por promessas de recompensas no Além.
Napoleão – A religião é aquilo que impede os pobres de matarem os ricos. Todas as religiões foram criadas pelo homem.
Roger Garaudy – A ciência só é rival da fé quando a religião faz de Deus um matemático, um físico taumaturgo ou um alquimista. A técnica só é rival da fé quando a religião faz de Deus um fabricante de mundos.
Albert Einstein – A Ciência não apenas purifica o espírito religioso do azinhavre de seu antropomorfismo, mas contribui também para uma espiritualização religiosa de nossa compreensão da vida.
William James – O fundamento da religião é a fé e as experiências religiosas.
Acredito que o sentimento é a fonte mais profunda da religião e que as fórmulas filosóficas e teológicas são produtos secundários, como as traduções de um texto para outras línguas.
Erich Fromm – A essência da experiência religiosa é a submissão a poderes superiores.
O problema da religião não é o problema de Deus, e sim o problema do homem e, por conseguinte, as formulações e os símbolos religiosos são tentativas para exprimir certos tipos de experiência humana.
Entendo que há dois tipos de religião: a) a autoritária, cuja essência é a submissão a um poder transcendental, onde o homem perde a sua independência e integridade, mas ganha um sentimento de estar protegido por um poder que inspira respeito; b) a humanista, que se centraliza no homem e nas suas potencialidades, cuja virtude consiste na realização pessoal e não na obediência, assim como no sentimento de solidariedade de todas as coisas.
Enquanto na religião autoritária, o tom emocional é de tristeza e culpa, o da religião humanista é de alegria.
A religião pode importar em desenvolvimento ou em paralisação das potencialidades humanas. O ritual funciona como mecanismo de catarse psicológica.
Gandhi – As religiões são caminhos diferentes convergindo para o mesmo ponto. Que importância faz se seguimos por caminhos diferentes, desde que alcancemos o mesmo objetivo?
Fustel de Coulanges – Distingo duas fontes da religião: a) uma interna e que nasce das projeções psicológicas dos homens, exprimindo os "precipitados" subjetivos de sua experiência; b) uma externa, derivada das reações dos homens a forças naturais.
Joachim Wach – Nenhum dos grandes fundadores - Jesus Cristo, Buda, Jaina, Maomé, Zoroastro, Mani, Confúcio, Lao-Tsé - tencionava "fundar uma religião". Cada qual, a seu modo, estava interessado em por em prática uma experiência que se tornou decisiva em sua vida, determinando uma postura peculiar em relação aos problemas existenciais e transcendentais.
Whitehead – A religião é o que o indivíduo faz com a sua própria solidão.
VRB – Infelizmente, cada religião se proclama a única verdadeira, sendo as demais falsas.
Émile Durkheim – Não existem religiões falsas, porque todas elas são essencialmente sociais. São uma projeção da experiência social.
Max Weber – A necessidade racional de uma teodicéia do sofrimento e da morte teve efeitos extremamente fortes. Na realidade, essa necessidade modelou importantes traços de religiões como o hinduísmo, o zoroastrismo e o judaísmo e, até certo ponto, o cristianismo paulino e posterior. Ainda em 1906 uma simples minoria entre um número bastante considerável de proletários mencionou como razões para não acreditarem no cristianismo as conclusões das modernas teorias das Ciências Naturais. A maioria, porém, referiu-se à "injustiça" da ordem do mundo — na verdade, essencialmente porque acreditava numa compensação revolucionária ainda neste mundo.
A teodicéia do sofrimento pode ser colorida de ressentimento. Mas a necessidade de compensação pela insuficiência de nosso destino neste mundo não tem, em geral, o ressentimento como um elemento básico e decisivo. Sem dúvida, a necessidade de vingança teve uma afinidade especial com a convicção de que os injustos se saem melhor neste mundo, apenas o inferno lhes está reservado no outro. A bênção eterna está reservada para os pios; os pecados ocasionais, que, afinal de contas, os pios também cometem, devem portanto ser expiados neste mundo. Não obstante, podemos ver facilmente que nem mesmo esse modo de pensar, que surge ocasionalmente, é determinado pelo ressentimento, e que não é, de forma alguma, o produto de camadas oprimidas socialmente. Veremos que houve apenas alguns exemplos de religião para os quais o ressentimento contribuiu de forma essencial. Entre eles, apenas um se desenvolveu plenamente. Só podemos dizer que o ressentimento poderia ser, e com freqüência o foi em toda parte, significativo como um fator, entre vários, de influência sobre o racionalismo, determinado religiosamente, de camadas socialmente desprivilegiadas. Adquiriu essa significação em graus altamente diversos e com freqüência mínimos de acordo com a natureza das promessas apresentadas pelas diferentes religiões.
De qualquer modo, seria errôneo procurar atribuir o “ascetismo” em geral a tais fontes. A desconfiança da riqueza e poder, que em geral existe nas religiões de salvação autênticas, teve sua base natural principalmente na experiência dos redentores, profetas e sacerdotes. Eles compreenderam que as camadas "saciadas" e favorecidas neste mundo tinham pouco desejo de ser salvas, qualquer que fosse a salvação oferecida. Daí terem sido essas camadas dominantes menos “devotas”, no sentido das religiões de salvação. A evolução de uma ética religiosa racional teve raízes positivas e primárias nas condições íntimas das camadas sociais que eram menos valiosas socialmente.
Aldous Huxley – Parece haver duas razões principais para o observado desenvolvimento das religiões históricas. Primeiro, muitas pessoas não querem espiritualidade e libertação, mas sim uma religião que lhes dê satisfações emocionais, respostas às preces, poderes sobrenaturais e salvação parcial numa espécie de céu póstumo. Segundo, alguns desses poucos que desejam espiritualidade e libertação verificam que, para eles, a forma mais eficaz para atingir esses fins são as cerimônias, "as vãs repetições" e os ritos sacramentais. É pela participação nesses atos e repetindo fórmulas que são mais poderosamente lembrados da Base Eterna de todos os seres; é imergindo nos símbolos que eles podem mais facilmente chegar àquilo que é simbolizado. Cada coisa, evento ou pensamento pode, portanto, ser um ponto de interseção entre a criatura e o criador, entre uma mais ou menos distante manifestação de Deus e um raio, por assim dizer, da Divindade imanifestada; cada coisa, evento ou pensamento pode, portanto, transformar-se numa porta pela qual a alma pode passar do tempo à eternidade. Esta é a razão por que as religiões ritualistas e sacramentais podem levar à libertação. Mas, ao mesmo tempo, todo ser humano ama o poder e o auto-engrandecimento, e toda cerimônia santificada, fórmula ou rito sacramental é um canal através do qual poderá fluir a fascinante energia de um universo psíquico para o universo dos seres corporificados. Esta é a razão por que a religião ritualista e sacramental pode também distanciar-se da libertação.
Joseph Campbell – O judaísmo não busca novos adeptos, mas as outras três – islamismo, cristianismo e comunismo – são tradições assassinas. A meta de cada uma é a total conquista do mundo.
VRB – Os satisfeitos com a vida terrena não se preocupam com a vida espiritual. Não estão à espera de compensações no Além, porque não têm frustrações, nem revolta. A sua religiosidade é apenas social. Somente na doença e proximidade da morte, alguns deles, por temor, se voltam para a religião, com o fito de garantir o seu bem-estar num possível Além.
Para salvar a alma, vale tudo: jejuns, mortificações, preces, caridade, confissão de pecados, renúncia à vida material e orações.
Bertrand Russell – A religião baseia-se, penso eu, principalmente e antes de tudo, no medo. É, em parte, o terror do desconhecido e, em parte, como já o disse, o desejo de sentir que se tem uma espécie de irmão mais velho que se porá de nosso lado em todas as nossas dificuldades e disputas. O medo é a base de toda essa questão: o medo do mistério, o medo da derrota, o medo da morte. O medo é a fonte da crueldade e, por conseguinte, não é de estranhar que a crueldade e a religião tenham andado de mãos dadas. Isso porque o medo é a base dessas duas coisas. Neste mundo, podemos agora começar a compreender um pouco as coisas e a dominá-las com a ajuda da ciência, que abriu caminho, passo a passo, contra a religião cristã, contra as Igrejas e contra a oposição de todos os antigos preceitos. A ciência pode ensinar-nos, e penso que também os nossos corações podem fazê-lo, a não mais procurar apoios imaginários, a não mais inventar aliados no céu, mas a contar antes com os nossos próprios esforços aqui embaixo para tornar este mundo um lugar adequado para viver, ao invés da espécie de lugar a que as igrejas, durante todos estes séculos, o converteram.
Aldous Huxley – A religião como sistema de crenças sempre foi uma força ambivalente. Ela produz ao mesmo tempo a humildade e o que os poetas medievais chamam de "prelado altivo", o tirano eclesiástico. Produz a mais alta forma de arte e a mais baixa forma de superstição. Acende as chamas da caridade e também as fogueiras da Inquisição e aquela que queimou Servetus na Genebra de Calvino. Produz São Francisco e Elizabeth Fry mas também produz Torquemada e Kramer e Springer, autores do Malleus Maleficorum (Malho dos feiticeiros), o grande manual dos caçadores de bruxas publicado no ano em que Colombo descobriu a América. Produz George Fox mas também o Arcebispo Laud. Essa tremenda força da religião como sistema teológico sempre foi ambivalente, exatamente por causa da estranha natureza da crença e da estranha capacidade do homem de inventar respostas fantásticas quando envolve-se em especulações filosóficas.
De modo geral, os mitos têm sido menos perigosos do que os sistemas teológicos porque são menos precisos e têm menos pretensões. Onde existem sistemas teológicos exige-se que essas proposições sobre fatos do passado e futuro, e sobre a estrutura do universo, sejam absolutamente verdadeiras; conseqüentemente, a relutância em aceitá-las é encarada como rebelião contra Deus, merecedora do mais severo castigo. E vemos que, de fato, segundo o registro histórico, esses sistemas têm sido usados como justificação para quase todos os atos de agressão e expansão imperialista. Quase não há um só crime em grande escala na história que não tenha sido cometido em nome de Deus. Isso foi resumido há muitos séculos no hexâmetro de Lucrécio: "Tantum religio potuit suadere malorum"(Tão grandes males a religião persuadiu o homem a cometer). E ele deveria ter acrescentado: "Tantum religio potuit suadere bonorum" (e também persuadiu o homem a fazer tão grandes bens). No entanto, o bem tem de ser pago com uma grande dose de mal.
Nietzsche – Como pode alguém considerar como revelação sua própria opinião sobre as coisas? Esse é o problema da formação das religiões: cada vez um homem entrava em jogo para quem esse fenômeno era possível. A condição prévia era que acreditasse já precedentemente nas revelações. De repente, uma nova idéia lhe vem à mente, sua idéia, e o que há de inebriante numa grande hipótese pessoal que abrange a existência e o mundo inteiro penetra com tanto poder em sua consciência, que ele não ousa julgar-se o criador de uma tal felicidade, atribuindo sua causa, e também a causa que ocasiona esse pensamento novo, a seu deus: enquanto revelação desse deus. Como poderia um homem ser o autor De tão grande felicidade? -pergunta sua dúvida pessimista. Além disso, outras alavancas agem em segredo: por exemplo, reforça-se uma opinião diante de si mesmo, considerando-a como uma revelação, elimina-se assim o que ela tem de hipotético, é subtraída à critica e mesmo à dúvida, e assim é tornada sagrada. É verdade que nos rebaixamos desse modo ao papel de órgão, mas nosso pensamento acaba por ser vitorioso sob o nome de pensamento divino – esse sentimento de permanecer vencedor com ele no final das contas, esse sentimento vence o sentimento de rebaixamento. Outro sentimento se agita muda num segundo plano: quando se eleva o próprio produto acima de si, fazendo aparentemente abstração de seu próprio valor, conserva-se, contudo, uma espécie de alegria do amor paterno e orgulho paternal que apaga tudo, que faz ainda mais que apagar.
Jung – Uma das funções da religião é nos proteger da experiência religiosa.
Michel Montaigne – Os homens tendem a acreditar sobretudo naquilo que menos compreendem.
VRB – Um dos fundamentos da religião é a ação de Deus no mundo em forma de milagre.
Anatole France – Definem-nos o milagre: uma derrogação das leis da natureza. Não as conhecemos; como saberíamos que um fato as derroga?
David Hume – Nenhum depoimento é suficiente para estabelecer um milagre, a menos que o depoimento seja de tal natureza que a sua falsidade seria mais milagrosa que o fato que ele pretende estabelecer.
Mário Quintana – Tudo o que acontece é natural - inclusive o sobrenatural.
Joseph Campbell – Religiões repletas de ornatos e minúcias nos protegem de uma experiência mística explosiva que seria excessiva para nós.
Gandhi – Creio na verdade fundamental de todas as grandes religiões do mundo. Creio que são todas concedidas por Deus e creio que eram necessárias para os povos a quem essas religiões foram reveladas. E creio que se pudéssemos todos ler as escrituras das diferentes fés, sob o ponto de vista de seus respectivos seguidores, haveríamos de descobrir que, no fundo, foram todas a mesma coisa e sempre úteis umas às outras.
Thomas Paine – A minha mente é a minha igreja.
Einz Pagels – Se a fé se alicerça na ciência, quando a ciência muda de idéias sobre a natureza da realidade, a fé pode ver-se perturbada.
Francis Bacon – Um pouco de filosofia leva a mente humana ao ateísmo, mas a profundidade da filosofia leva-a para a religião.
Jiddu Krisnamurti – Religião é uma experiência instantânea daquele estado mental que está fora da continuidade do tempo.
Não há intermediário entre vós e a Realidade; e se o há, é um corruptor, um malfeitor, não importa quem ele seja, se o mais sublime Salvador ou vosso mais novo guru ou instrutor.
Edgar Morin – A religião é uma adaptação que traduz a inadaptação humana à morte, uma inadaptação que acha a sua adaptação.
Erasmo – Quantas lindas e lorotas não vão esses doutores impingindo a respeito do inferno? Conhecem tão bem todos os seus apartamentos, falam com tanta franqueza da natureza e dos vários graus do fogo eterno, e das diversas incumbência dos demônios e, discorrem, finalmente, com tanta precisão sobre a república dos danados, que parecem já ter sido cidadãos da mesma durante muitos anos. Além disso, quando julgam conveniente, não se poupam ao trabalho de criar ainda novos mundo, como o mostraram formando o décimo céu, por eles denominado empíreo e fabricado expressamente para os beatos, sendo mais do que justo que as almas glorificadas tivessem uma vasta e deliciosa morada para aí gozarem de todo o conforto, divertindo-se juntas e até jogando a péla quando tivessem vontade.
Albert Einstein – A religião do futuro será cósmica e transcenderá um Deus pessoal, evitando os dogmas e a teologia.
A religião cósmica é o móvel mais poderoso e mais generoso da pesquisa científica.
A condição dos homens seria lastimável se tivessem de ser domados pelo medo do castigo ou pela esperança de uma recompensa depois da morte.
A ciência sem a ciência é paralítica – a religião sem a ciência é cega.
Abraham Lincoln – Não me interessa nenhuma religião cujos princípios não melhoram nem tomam em consideração as condições dos animais.
Bertrand Russell – A maioria dos homens intelectualmente eminentes não acredita na religião cristã, mas esconde esse fato do público, porque tem medo de perder sua renda.
Francis Bacon – Um pouco de filosofia leva a mente humana ao ateísmo, mas a profundidade da filosofia leva-a para a religião.
Jiddu Krisnamurti – Religião é uma experiência instantânea daquele estado mental que está fora da continuidade do tempo.
Não há intermediário entre vós e a Realidade; e se o há, é um corruptor, um malfeitor, não importa quem ele seja, se o mais sublime Salvador ou vosso mais novo guru ou instrutor.
Edgar Morin – A religião é uma adaptação que traduz a inadaptação humana à morte, uma inadaptação que acha a sua adaptação.
Erasmo – Quantas lindas e lorotas não vão esses doutores impingindo a respeito do inferno? Conhecem tão bem todos os seus apartamentos, falam com tanta franqueza da natureza e dos vários graus do fogo eterno, e das diversas incumbência dos demônios e, discorrem, finalmente, com tanta precisão sobre a república dos danados, que parecem já ter sido cidadãos da mesma durante muitos anos. Além disso, quando julgam conveniente, não se poupam ao trabalho de criar ainda novos mundo, como o mostraram formando o décimo céu, por eles denominado empíreo e fabricado expressamente para os beatos, sendo mais do que justo que as almas glorificadas tivessem uma vasta e deliciosa morada para aí gozarem de todo o conforto, divertindo-se juntas e até jogando a péla quando tivessem vontade.
Albert Einstein – A religião do futuro será cósmica e transcenderá um Deus pessoal, evitando os dogmas e a teologia.
A religião cósmica é o móvel mais poderoso e mais generoso da pesquisa científica.
A condição dos homens seria lastimável se tivessem de ser domados pelo medo do castigo ou pela esperança de uma recompensa depois da morte.
A ciência sem a ciência é paralítica – a religião sem a ciência é cega.
Abraham Lincoln – Não me interessa nenhuma religião cujos princípios não melhoram nem tomam em consideração as condições dos animais.
Bertrand Russell – A maioria dos homens intelectualmente eminentes não acredita na religião cristã, mas esconde esse fato do público, porque tem medo de perder sua renda.
CIÊNCIA
VRB – Ainda não há um consenso sobre o que é a ciência e o que não é ciência. É o tema em discussão neste encontro.
Karl Popper - A ciência não é um sistema de enunciados certos ou bem estabelecidos, nem é um sistema que avance continuamente em direção a um estado de finalidade. Nossa ciência não é conhecimento (episteme): ela jamais pode proclamar haver atingida verdade ou um substituto da verdade, como a probabilidade.
VRB – Podemos aventar a hipótese da inércia cognitiva, mediante a qual tudo se estabiliza numa imobilidade dogmática. Parece-se que a ciência tem a tendência de fechar-se em paradigmas.
Max Planck – Uma nova verdade científica não triunfa convencendo seus oponentes e fazendo com que vejam a luz, mas porque seus oponentes finalmente morrem e uma nova geração cresce familiarizada com ela.
Jacobi Bronowski – A Ciência é uma tentativa de representar o mundo conhecido como um sistema fechado com um formalismo perfeito. A descoberta científica é um constante processo dissidente para forçar a abertura dos limites do sistema, para revelá-lo outra vez e, então, depois de ter introduzido sua parcela específica de trabalho, fechá-lo rapidamente. É claro que todos gostariam que a sua fosse a última descoberta. Mas, ora — ou prefiro dizer, felizmente — isto não acontece. É da natureza de todos os sistemas simbólicos só permanecerem fechados enquanto não se tenta dizer alguma coisa com eles, que já não esteja contida em todo o trabalho experimental feito.
O que distingue a Ciência é ela ser uma tentativa sistemática de estabelecer sistemas fechados, um depois do outro. Mas toda a descoberta científica fundamental abre novamente o sistema.
A ciência não é um livro, registro de fatos ou regras; é o processo de criação de conceitos que dão unidade e sentido à natureza.
Thomas Kuhn - Embora algumas vezes seja necessário uma geração para que a mudança se realize, as comunidades científicas seguidamente têm sido convertidas a novos paradigmas. Além disso, essas conversões não ocorrem apesar de os cientistas serem humanos, mas exatamente porque eles o são. Embora alguns cientistas, especialmente os mais velhos e mais experientes, possam resistir indefinidamente, a maioria deles pode ser atingida de uma maneira ou outra. Ocorrerão algumas conversões de cada vez, até que, morrendo os últimos opositores, todos os membros da profissão passarão a orientar-se por um único - mas já agora diferente - paradigma.
VRB – Até certo ponto, isso é verdade. Mas há idéias obsoletas que possuem uma força assaz poderosa e que atravessam gerações até finalmente perda sua validade. Uma idéia que se arrime no senso comum é dotada de uma extraordinária vitalidade.
Gaston Bachelard – Só existe um meio de fazer a ciência avançar: é o de atacar a ciência já constituída, ou seja, mudar a sua constituição.
A ciência contemporânea pretende conhecer fenômenos e não coisas. Ela não é de modo algum coisista. A coisa não é mais do que um fenômeno parado.
George Bernard Shaw – A ciência nunca resolve um problema sem criar pelo menos outros dez.
VRB – A ciência tem a sua fé e seus fanáticos. A crença de que o universo é organizado e, portanto, inteligível e que a razão é capaz de, um dia, entender e dominar a realidade. E tem os seus fanáticos: aqueles que transformaram hipóteses em dogmas, consolidando paradigmas que subjugam a comunidade científica de determinada época.
Albert Einstein – Sem a convicção de uma harmonia íntima do universo, não poderia haver ciência. Esta convicção é, e continuará a ser, a base de toda a criação científica.
A ciência sem a religião é coxa, a religião sem a ciência é cega.
VRB – A fé é a certeza sem prova. A ciência é a probabilidade da certeza.
Max Planck – Quem quer que se tenha ocupado seriamente de trabalho científico de qualquer tipo percebe que sobre os portões de entrada do templo da ciência estão escritas as palavras: Deveis ter fé. É uma qualidade que o cientista não pode dispensar.
Albert Einstein – A coisa mais bela que o homem pode experimentar é o mistério. É esta a emoção fundamental que está na raiz de toda ciência e arte. O homem que desconhece esse encanto, incapaz de sentir admiração e estupefação, esse está, por assim dizer, morto, e tem os olhos extintos.
Max Planck – A ciência não pode resolver o mistério final da natureza. E isso porque em última análise nós mesmos somos parte do mistério que estamos tentando resolver.
Rámon y Cajal – Enquanto o cérebro for um mistério, o universo também será um mistério.
Karl Popper – O objetivo da ciência é saber cada vez mais.
Arthur Koestler – A ciência não pode dar as respostas definitivas, mas pode formular as perguntas adequadas.
René Thom – Em carta que dirigi a Paul Germain, afirmei que não há critério único de cientificidade. Cada domínio disciplinar elabora os seus próprios critérios de cientificidade.
Ludwig Von Bertalanffi – A ciência em geral consiste em larga medida em super-simplificações nos modelos que usa. Há um aspecto de idealização em cada lei e modelo da ciência. O modelo do átomo concebido por Bohr foi uma das mais arbitrarias simplificações jamais concebidas, mas entretanto tornou-se uma pedra angular da física moderna.
Karl Popper – O velho ideal científico da episteme - do conhecimento absolutamente certo, demonstrável - mostrou não passar de um "ídolo". A exigência da objetividade científica torna inevitável que todo enunciado científico permaneça provisório para sempre. Pode ele, é claro, ser corroborado, mas toda corroboração é feita com referência a outros enunciados, por sua vez provisórios. Apenas em nossas experiências subjetivas de convicção, em nossa fé subjetiva, podemos estar "absolutamente certos".
Carl Sagan – Existem muitas hipóteses em ciência que estão erradas. Isso é perfeitamente aceitável, eles são a abertura para achar as que estão certas.
Jules Henri Poincaré – Assim como casas são feitas de pedras, a ciência é feita de fatos. Mas uma pilha de pedras não é uma casa e uma coleção de fatos não é, necessariamente, ciência.
VRB – Por mais que avancemos em todas as áreas do conhecimento, surgem sempre novos mistérios como subprodutos da nossa crescente ignorância.
Hubert Reeves – Hoje, os cientistas admitem que todas as teorias da física contemporânea são aproximativas. Nenhuma dá uma imagem universalmente válida do mundo real. Além disso, cada uma funciona dentro de determinado domínio, definido por certas condições e fora do qual se torna inútil.
Albert Einstein – A coisa mais bela que o homem pode experimentar é o mistério. É esta a emoção fundamental que está na raiz de toda ciência e arte. O homem que desconhece esse encanto, é incapaz de sentir admiração e estupefação, esse já está, por assim dizer, morto, e tem os olhos extintos.
VRB – Platão já dizia que o espanto é próprio do filósofo. Já os estóicos afirmavam que o sábio não se espanta com nada. Se o espanto é o ato de encantar-se com o inédito, concordo plenamente com Platão.
Albert Einstein – O trabalho de pesquisadores e cientistas germina no campo da imaginação e da intuição.
Mário Schenberg – A criação científica é uma coisa bastante interessante. Se fosse simplesmente raciocinar logicamente seria uma coisa fácil, mas não é. Às vezes, é preciso raciocinar errado para chegar ao resultado certo. Agora, qual o método para raciocinar errado e chegar a uma solução correta, é uma grande incógnita.
Jacob Bronowski – A ciência é uma descrição do mundo, ou melhor, uma linguagem para descrever o mundo. Confina-se nos limites das observações, e nada afirma fora do escopo da observação. Qualquer outra coisa não é ciência, é escolástica.
A ciência é uma atividade de ordenação da nossa experiência. É um mecanismo de previsão em processo de contínua autocorreção.
A ciência começa pela crença numa ordem do mundo; ou melhor, que o mundo pode ser ordenado por arranjo humano. Ela é um conjunto de observações ordenadas e um mecanismo de previsão em processo de contínua autocorreção. A ciência é a aceitação do que é eficaz e a rejeição do que não é.
Temos de aprender a compreender que o conteúdo de todo conhecimento é empírico e que seu teste é a eficácia.
O que distingue a Ciência é ela ser uma tentativa sistemática de estabelecer sistemas fechados, um depois do outro. É uma atividade experimental baseada em tentativas e erros. Mas toda a descoberta científica fundamental abre novamente o sistema.
A ciência não é um árido registro de fatos, mas sim a procura da ordem dentro dos fatos. E a verdade da ciência não é a verdade do fato, que nunca pode ser mais que aproximada, mas a verdade das leis que vemos nos fatos.
Toda concepção de causas em ciência provém, historicamente, do êxito da lei da gravidade.
A ciência não é um árido registro de fatos, mas sim a procura da ordem dentro dos fatos. E a verdade da ciência não é a verdade do fato, que nunca pode ser mais do que aproximada, mas a verdade das leis que vemos nos fatos.
A ciência não pode existir sem juízos de valor e nem como uma pálida atividade mecânica.
Albert Einstein – Tornou-se chocantemente óbvio que a nossa tecnologia excedeu a nossa humanidade.
VRB – A ciência se constrói a partir das nossas experiências com o mundo?
Jacob Bronowski – Não. Não construímos o mundo a partir de nossas experiências: temos, sim, consciência do mundo em nossas experiências.
É a mente inquisidora que transforma o acidente num ao providencial.
VRB – A ciência, pelo seu prestigio, se tornou, sob certos aspectos, um sucedâneo da religião. Assim, parece existir uma tendência de que ela satisfaça nossos desejos, mediante milagres tecnológicos.
Carl Sagan – E se o mundo não corresponde em todos os aspectos a nossos desejos, é culpa da ciência ou dos que querem impor seus desejos ao mundo?
VRB – A confiabilidade de uma hipótese científica se legitima através do teste?
Jacobi Bronowski – O objetivo da ciência é funcionar, e não se testada, embora seja preciso testá-la como um diagnóstico, ou salvaguarda instrumental, a fim de que possamos perceber disfunções, não devemos pôr o carro à frente dos bois. Mesmo do ponto de vista lingüístico, estaremos fazendo um convite ao erro se descrevermos toda ação científica como um teste. A exigência funcional é que uma teoria científica funcione – como quer que se defina o termo. E perderemos esse conceito se permitirmos que a linguagem do diagnóstico o distorça, falando em teste toda a vez que o aplicarmos.
VRB – Há hipóteses que são rejeitadas à míngua de comprovação empírica.
Carl Sagan – A ausência da evidência não significa evidência da ausência.
Gregory Bateson – A ciência é uma maneira de perceber.
A ciência investiga; ela não prova nada. Ela, às vezes, aperfeiçoa hipóteses e algumas vezes as refuta.
Jacob Bronowski – O símbolo e a metáfora são tão necessários à ciência como à poesia.
VRB – E qual, na sua opinião, deve ser a postura do cientista?
Jacob Bronowski – A discordância. Ela deve ser a atividade natural do cientista. Ninguém pode ser um cientista se não possuir independência de observação e de pensamento.
Por incrível que pareça, não existem regras técnicas para o êxito da ciência.
Todos os cientistas têm de aprender duramente a sua lição, isto é, respeitar as opiniões do seu semelhante, ainda que ele seja bastante indelicado na expressão das mesmas.
VRB – Parece que a ciência moderna se inclina mais para o probabilismo do que para o determinismo.
Jacob Bronowski – É esse o pensamento revolucionário da ciência moderna. Substitui o conceito do efeito inevitável pelo de tendência provável.
VRB – Ainda permanece o ranço de se afastar as ciências da natureza das ciências humanas e sociais.
Jacob Bronowski – É um equívoco. Não há ciência que não seja, de algum modo, ciência social.
VRB – Podemos falar em verdades científicas?
Paul Davies – Nem todos os físicos pensam que tenha sentido falar da “verdade” . A física, segundo esta outra filosofia, nada tem a ver com a verdade, mas com modelos: modelos que nos ajudam a relacionar observações de forma sistemática. Niels Bohr expressou este ponto de vista, dito positivista, ao dizer que a física enuncia o que nós podemos saber acerca do mundo, e não como ele é. A teoria quântica levou muitos cientistas a declarar que não há realidade “objetiva” de espécie alguma. A única realidade é a revelada pelas nossas observações. Segundo este ponto de vista, não é possível afirmar que uma teoria está 'certa' ou 'errada', mas apenas se é útil ou não; e uma teoria útil é a que conecta um vasto âmbito de fenômenos num único esquema descritivo bastante apurado. Este ponto de vista é diametralmente oposto ao da religião, em que o adepto acredita numa verdade última. Uma proposição religiosa é vulgarmente tomada como certa ou errada, e não como uma espécie de modelo das nossas experiências.
Karl Popper – As teorias científicas procuram organizar a realidade, descobrindo regularidades e tornando possível a previsibilidade de fatos. O mais importante, porém, numa teoria é a sua capacidade de enfrentar críticas e testes. E a melhor teoria é aquela que explica mais e com maior precisão, permitindo melhores previsões. A ciência não se origina de observações, mas de problemas e “a maior contribuição de uma teoria para o crescimento do conhecimento científico está nos problemas que suscita”. As teorias são aproximações da verdade. Por conseguinte, “é um erro acreditar que a atitude do cientista natural é mais objetiva do que a do cientista social”.
Uma boa teoria é aquela que, em princípio, pode ser refutada. Aquela que proíbe alguma coisa e é derrubada quando o proibido acontece. Aquela que fixa algumas condições sob as quais se tornaria insustentável. Por conseguinte, uma teoria irrefutável não é científica.
Para fugir a qualquer postura dogmática, é mister considerar todas as leis e teorias como tentativas, mesmo quando não seja mais possível duvidar delas.
É mais fácil tornar uma teoria científica credível do que prová-la.
VRB – Para os cientistas, a objetividade é a que distingue dos demais ramos do conhecimento.
Karl Popper – A objetividade da ciência consiste na atitude de criticismo e no exame crítico da experiência. Porém, “uma teoria científica pode tornar-se uma moda intelectual, um substituto para a religião, uma ideologia entrincheirada”. O verdadeiro coração da filosofia é constituído pelos problemas da teoria do conhecimento. Constitui uma “perdição intelectual” o abandono de problemas reais em favor de problemas meramente verbais.
VRB – E quanto à afirmação da neutralidade científica?
Karl Popper – A neutralidade científica é um mito, pois “não podemos roubar o partidarismo de um cientista sem também roubá-lo de sua humanidade, e não podemos suprimir o destruir seus juízos de valores sem destruí-lo como ser humano e como cientista. Se há valores extracientíficos da atividade científica, o cientista “objetivo” ou “isento de valores” é, dificilmente, o cientista ideal.
Karl Popper - A ciência não é um sistema de enunciados certos ou bem estabelecidos, nem é um sistema que avance continuamente em direção a um estado de finalidade. Nossa ciência não é conhecimento (episteme): ela jamais pode proclamar haver atingida verdade ou um substituto da verdade, como a probabilidade.
VRB – Podemos aventar a hipótese da inércia cognitiva, mediante a qual tudo se estabiliza numa imobilidade dogmática. Parece-se que a ciência tem a tendência de fechar-se em paradigmas.
Max Planck – Uma nova verdade científica não triunfa convencendo seus oponentes e fazendo com que vejam a luz, mas porque seus oponentes finalmente morrem e uma nova geração cresce familiarizada com ela.
Jacobi Bronowski – A Ciência é uma tentativa de representar o mundo conhecido como um sistema fechado com um formalismo perfeito. A descoberta científica é um constante processo dissidente para forçar a abertura dos limites do sistema, para revelá-lo outra vez e, então, depois de ter introduzido sua parcela específica de trabalho, fechá-lo rapidamente. É claro que todos gostariam que a sua fosse a última descoberta. Mas, ora — ou prefiro dizer, felizmente — isto não acontece. É da natureza de todos os sistemas simbólicos só permanecerem fechados enquanto não se tenta dizer alguma coisa com eles, que já não esteja contida em todo o trabalho experimental feito.
O que distingue a Ciência é ela ser uma tentativa sistemática de estabelecer sistemas fechados, um depois do outro. Mas toda a descoberta científica fundamental abre novamente o sistema.
A ciência não é um livro, registro de fatos ou regras; é o processo de criação de conceitos que dão unidade e sentido à natureza.
Thomas Kuhn - Embora algumas vezes seja necessário uma geração para que a mudança se realize, as comunidades científicas seguidamente têm sido convertidas a novos paradigmas. Além disso, essas conversões não ocorrem apesar de os cientistas serem humanos, mas exatamente porque eles o são. Embora alguns cientistas, especialmente os mais velhos e mais experientes, possam resistir indefinidamente, a maioria deles pode ser atingida de uma maneira ou outra. Ocorrerão algumas conversões de cada vez, até que, morrendo os últimos opositores, todos os membros da profissão passarão a orientar-se por um único - mas já agora diferente - paradigma.
VRB – Até certo ponto, isso é verdade. Mas há idéias obsoletas que possuem uma força assaz poderosa e que atravessam gerações até finalmente perda sua validade. Uma idéia que se arrime no senso comum é dotada de uma extraordinária vitalidade.
Gaston Bachelard – Só existe um meio de fazer a ciência avançar: é o de atacar a ciência já constituída, ou seja, mudar a sua constituição.
A ciência contemporânea pretende conhecer fenômenos e não coisas. Ela não é de modo algum coisista. A coisa não é mais do que um fenômeno parado.
George Bernard Shaw – A ciência nunca resolve um problema sem criar pelo menos outros dez.
VRB – A ciência tem a sua fé e seus fanáticos. A crença de que o universo é organizado e, portanto, inteligível e que a razão é capaz de, um dia, entender e dominar a realidade. E tem os seus fanáticos: aqueles que transformaram hipóteses em dogmas, consolidando paradigmas que subjugam a comunidade científica de determinada época.
Albert Einstein – Sem a convicção de uma harmonia íntima do universo, não poderia haver ciência. Esta convicção é, e continuará a ser, a base de toda a criação científica.
A ciência sem a religião é coxa, a religião sem a ciência é cega.
VRB – A fé é a certeza sem prova. A ciência é a probabilidade da certeza.
Max Planck – Quem quer que se tenha ocupado seriamente de trabalho científico de qualquer tipo percebe que sobre os portões de entrada do templo da ciência estão escritas as palavras: Deveis ter fé. É uma qualidade que o cientista não pode dispensar.
Albert Einstein – A coisa mais bela que o homem pode experimentar é o mistério. É esta a emoção fundamental que está na raiz de toda ciência e arte. O homem que desconhece esse encanto, incapaz de sentir admiração e estupefação, esse está, por assim dizer, morto, e tem os olhos extintos.
Max Planck – A ciência não pode resolver o mistério final da natureza. E isso porque em última análise nós mesmos somos parte do mistério que estamos tentando resolver.
Rámon y Cajal – Enquanto o cérebro for um mistério, o universo também será um mistério.
Karl Popper – O objetivo da ciência é saber cada vez mais.
Arthur Koestler – A ciência não pode dar as respostas definitivas, mas pode formular as perguntas adequadas.
René Thom – Em carta que dirigi a Paul Germain, afirmei que não há critério único de cientificidade. Cada domínio disciplinar elabora os seus próprios critérios de cientificidade.
Ludwig Von Bertalanffi – A ciência em geral consiste em larga medida em super-simplificações nos modelos que usa. Há um aspecto de idealização em cada lei e modelo da ciência. O modelo do átomo concebido por Bohr foi uma das mais arbitrarias simplificações jamais concebidas, mas entretanto tornou-se uma pedra angular da física moderna.
Karl Popper – O velho ideal científico da episteme - do conhecimento absolutamente certo, demonstrável - mostrou não passar de um "ídolo". A exigência da objetividade científica torna inevitável que todo enunciado científico permaneça provisório para sempre. Pode ele, é claro, ser corroborado, mas toda corroboração é feita com referência a outros enunciados, por sua vez provisórios. Apenas em nossas experiências subjetivas de convicção, em nossa fé subjetiva, podemos estar "absolutamente certos".
Carl Sagan – Existem muitas hipóteses em ciência que estão erradas. Isso é perfeitamente aceitável, eles são a abertura para achar as que estão certas.
Jules Henri Poincaré – Assim como casas são feitas de pedras, a ciência é feita de fatos. Mas uma pilha de pedras não é uma casa e uma coleção de fatos não é, necessariamente, ciência.
VRB – Por mais que avancemos em todas as áreas do conhecimento, surgem sempre novos mistérios como subprodutos da nossa crescente ignorância.
Hubert Reeves – Hoje, os cientistas admitem que todas as teorias da física contemporânea são aproximativas. Nenhuma dá uma imagem universalmente válida do mundo real. Além disso, cada uma funciona dentro de determinado domínio, definido por certas condições e fora do qual se torna inútil.
Albert Einstein – A coisa mais bela que o homem pode experimentar é o mistério. É esta a emoção fundamental que está na raiz de toda ciência e arte. O homem que desconhece esse encanto, é incapaz de sentir admiração e estupefação, esse já está, por assim dizer, morto, e tem os olhos extintos.
VRB – Platão já dizia que o espanto é próprio do filósofo. Já os estóicos afirmavam que o sábio não se espanta com nada. Se o espanto é o ato de encantar-se com o inédito, concordo plenamente com Platão.
Albert Einstein – O trabalho de pesquisadores e cientistas germina no campo da imaginação e da intuição.
Mário Schenberg – A criação científica é uma coisa bastante interessante. Se fosse simplesmente raciocinar logicamente seria uma coisa fácil, mas não é. Às vezes, é preciso raciocinar errado para chegar ao resultado certo. Agora, qual o método para raciocinar errado e chegar a uma solução correta, é uma grande incógnita.
Jacob Bronowski – A ciência é uma descrição do mundo, ou melhor, uma linguagem para descrever o mundo. Confina-se nos limites das observações, e nada afirma fora do escopo da observação. Qualquer outra coisa não é ciência, é escolástica.
A ciência é uma atividade de ordenação da nossa experiência. É um mecanismo de previsão em processo de contínua autocorreção.
A ciência começa pela crença numa ordem do mundo; ou melhor, que o mundo pode ser ordenado por arranjo humano. Ela é um conjunto de observações ordenadas e um mecanismo de previsão em processo de contínua autocorreção. A ciência é a aceitação do que é eficaz e a rejeição do que não é.
Temos de aprender a compreender que o conteúdo de todo conhecimento é empírico e que seu teste é a eficácia.
O que distingue a Ciência é ela ser uma tentativa sistemática de estabelecer sistemas fechados, um depois do outro. É uma atividade experimental baseada em tentativas e erros. Mas toda a descoberta científica fundamental abre novamente o sistema.
A ciência não é um árido registro de fatos, mas sim a procura da ordem dentro dos fatos. E a verdade da ciência não é a verdade do fato, que nunca pode ser mais que aproximada, mas a verdade das leis que vemos nos fatos.
Toda concepção de causas em ciência provém, historicamente, do êxito da lei da gravidade.
A ciência não é um árido registro de fatos, mas sim a procura da ordem dentro dos fatos. E a verdade da ciência não é a verdade do fato, que nunca pode ser mais do que aproximada, mas a verdade das leis que vemos nos fatos.
A ciência não pode existir sem juízos de valor e nem como uma pálida atividade mecânica.
Albert Einstein – Tornou-se chocantemente óbvio que a nossa tecnologia excedeu a nossa humanidade.
VRB – A ciência se constrói a partir das nossas experiências com o mundo?
Jacob Bronowski – Não. Não construímos o mundo a partir de nossas experiências: temos, sim, consciência do mundo em nossas experiências.
É a mente inquisidora que transforma o acidente num ao providencial.
VRB – A ciência, pelo seu prestigio, se tornou, sob certos aspectos, um sucedâneo da religião. Assim, parece existir uma tendência de que ela satisfaça nossos desejos, mediante milagres tecnológicos.
Carl Sagan – E se o mundo não corresponde em todos os aspectos a nossos desejos, é culpa da ciência ou dos que querem impor seus desejos ao mundo?
VRB – A confiabilidade de uma hipótese científica se legitima através do teste?
Jacobi Bronowski – O objetivo da ciência é funcionar, e não se testada, embora seja preciso testá-la como um diagnóstico, ou salvaguarda instrumental, a fim de que possamos perceber disfunções, não devemos pôr o carro à frente dos bois. Mesmo do ponto de vista lingüístico, estaremos fazendo um convite ao erro se descrevermos toda ação científica como um teste. A exigência funcional é que uma teoria científica funcione – como quer que se defina o termo. E perderemos esse conceito se permitirmos que a linguagem do diagnóstico o distorça, falando em teste toda a vez que o aplicarmos.
VRB – Há hipóteses que são rejeitadas à míngua de comprovação empírica.
Carl Sagan – A ausência da evidência não significa evidência da ausência.
Gregory Bateson – A ciência é uma maneira de perceber.
A ciência investiga; ela não prova nada. Ela, às vezes, aperfeiçoa hipóteses e algumas vezes as refuta.
Jacob Bronowski – O símbolo e a metáfora são tão necessários à ciência como à poesia.
VRB – E qual, na sua opinião, deve ser a postura do cientista?
Jacob Bronowski – A discordância. Ela deve ser a atividade natural do cientista. Ninguém pode ser um cientista se não possuir independência de observação e de pensamento.
Por incrível que pareça, não existem regras técnicas para o êxito da ciência.
Todos os cientistas têm de aprender duramente a sua lição, isto é, respeitar as opiniões do seu semelhante, ainda que ele seja bastante indelicado na expressão das mesmas.
VRB – Parece que a ciência moderna se inclina mais para o probabilismo do que para o determinismo.
Jacob Bronowski – É esse o pensamento revolucionário da ciência moderna. Substitui o conceito do efeito inevitável pelo de tendência provável.
VRB – Ainda permanece o ranço de se afastar as ciências da natureza das ciências humanas e sociais.
Jacob Bronowski – É um equívoco. Não há ciência que não seja, de algum modo, ciência social.
VRB – Podemos falar em verdades científicas?
Paul Davies – Nem todos os físicos pensam que tenha sentido falar da “verdade” . A física, segundo esta outra filosofia, nada tem a ver com a verdade, mas com modelos: modelos que nos ajudam a relacionar observações de forma sistemática. Niels Bohr expressou este ponto de vista, dito positivista, ao dizer que a física enuncia o que nós podemos saber acerca do mundo, e não como ele é. A teoria quântica levou muitos cientistas a declarar que não há realidade “objetiva” de espécie alguma. A única realidade é a revelada pelas nossas observações. Segundo este ponto de vista, não é possível afirmar que uma teoria está 'certa' ou 'errada', mas apenas se é útil ou não; e uma teoria útil é a que conecta um vasto âmbito de fenômenos num único esquema descritivo bastante apurado. Este ponto de vista é diametralmente oposto ao da religião, em que o adepto acredita numa verdade última. Uma proposição religiosa é vulgarmente tomada como certa ou errada, e não como uma espécie de modelo das nossas experiências.
Karl Popper – As teorias científicas procuram organizar a realidade, descobrindo regularidades e tornando possível a previsibilidade de fatos. O mais importante, porém, numa teoria é a sua capacidade de enfrentar críticas e testes. E a melhor teoria é aquela que explica mais e com maior precisão, permitindo melhores previsões. A ciência não se origina de observações, mas de problemas e “a maior contribuição de uma teoria para o crescimento do conhecimento científico está nos problemas que suscita”. As teorias são aproximações da verdade. Por conseguinte, “é um erro acreditar que a atitude do cientista natural é mais objetiva do que a do cientista social”.
Uma boa teoria é aquela que, em princípio, pode ser refutada. Aquela que proíbe alguma coisa e é derrubada quando o proibido acontece. Aquela que fixa algumas condições sob as quais se tornaria insustentável. Por conseguinte, uma teoria irrefutável não é científica.
Para fugir a qualquer postura dogmática, é mister considerar todas as leis e teorias como tentativas, mesmo quando não seja mais possível duvidar delas.
É mais fácil tornar uma teoria científica credível do que prová-la.
VRB – Para os cientistas, a objetividade é a que distingue dos demais ramos do conhecimento.
Karl Popper – A objetividade da ciência consiste na atitude de criticismo e no exame crítico da experiência. Porém, “uma teoria científica pode tornar-se uma moda intelectual, um substituto para a religião, uma ideologia entrincheirada”. O verdadeiro coração da filosofia é constituído pelos problemas da teoria do conhecimento. Constitui uma “perdição intelectual” o abandono de problemas reais em favor de problemas meramente verbais.
VRB – E quanto à afirmação da neutralidade científica?
Karl Popper – A neutralidade científica é um mito, pois “não podemos roubar o partidarismo de um cientista sem também roubá-lo de sua humanidade, e não podemos suprimir o destruir seus juízos de valores sem destruí-lo como ser humano e como cientista. Se há valores extracientíficos da atividade científica, o cientista “objetivo” ou “isento de valores” é, dificilmente, o cientista ideal.
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